sábado, 23 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 2: Insanidade


Nas aulas de catecismo, eu era respeitado. Eu gostava daquele respeito e a religião acabou conquistando minha admiração pois, na escola, era um nerd. Gostei da ideia de ir ao acampamento, mas ainda não tinha intenções de me juntar à comunidade que a organizava.

Lá, ouvi palestrar sobre coisas que eu já... “sabia”. Drogas não, sexo antes do casamento não, pornografia não... Mas havia uma coisa que eu não ouvira: ser você mesmo. Todo grupo religioso fanático tem um conjunto de palavras-chave que são carregadas de misticismo. Na Laetare, era encontrar sua verdadeira essência, ser você mesmo, não este que você está sendo.

Lembra de quando você era menina é brincava de boneca? – dizia a palestrante – Depois você cresceu e disseram pra você que boneca era coisa de criança? Isso é o mundo – outra palavra carregada – fazendo com que você deixe de ser você mesmo, arrancando de você a sua essência, e você se deixou levar pelas tribulações do mundo!

Isso me lembra tempos depois, um colega de comunidade mencionou que difamavam a Laetare dizendo que no acampamento haviam lavagens cerebrais, fiquei espantado. Não deveria ter ficado. No acampamento, não podíamos usar relógios, dormíamos tarde, acordávamos cedo, cansaço, palestras emotivas, músicas, nomes latinos com significados religiosos para as tribos... Palavras-chave carregadas...

Aquela palestra me marcou, mas não foi isso que me convenceu a juntar-me à turma.

À tarde, havia os desafios. Como eu não era bom em esportes e minha equipe também não era lá essas coisas, os desafios só me frustraram. Na véspera do último dia, à noite, todos cansados, jantados, fomos a uma caminhada no escuro, mãos dadas, em fila, silêncio absoluto. Chegamos ao redor de uma fogueira, enorme, enfeitiçante.

A palestra era do Silvanei. Lembro-me vagamente do que ele falou, envolvia aquelas palavras carregadas. Dentro de você tem uma fogueira ou coisa do tipo. Fato é que não prestei muita atenção, como me é bastante comum, pensava em qualquer outra coisa. Música de fundo, suave, leve, voando ao vento frio, fogueira queimando... resmungos, lamentações, choros...

Nossa, o povo está chorando, eu perdi alguma coisa? O que fez o povo chorar?

Culpa. Essa é uma arma muito poderosa, é por isso toda a preparação, todo o feitiço, o cansaço, a caminhada, dois ou três dias acampando... Em situações normais, não seria tão fácil infligir culpa sem um bom motivo. Fosse em adultos com cabeça formada e que estivessem prestando atenção ao que acontecia... Fosse uma palestra puramente de reflexão, um bate-papo sem compromisso, sem a intenção de fazê-las sentirem-se culpadas sem motivo por ideias vagas! Isso é para que a cabeça fique trancada, imune ao resto, enquanto aquele que bota a culpa fica com a chave. Talvez por isso é que minha estadia na Comunidade tenha sido tão frustrante quanto foi. Talvez minha cabeça estivesse trancada, mas sem chave alguma para abrir, porque aquilo simplesmente não me tocou.

No último dia, choro na hora da partida, pessoas afirmando como elas tentariam ser pessoas melhores dali em diante, como a experiência no acampamento foi boa... Não, não tenho objeções neste ponto, o acampamento foi, talvez, bom para as pessoas que se foram, desapareceram.

A comoção geral, entretanto, impressionou-me. Havia algo impressionante ali dentro que eu não entendia, era-me um mistério. Além disso, como já disse, religião, para mim, significava aceitação, pensei que ali seria o paraíso, então fiquei por ali.

Orar em línguas. Minha irmã dissera anos antes que lera numa notícia qualquer que o próprio papa havia dito que não existia oração em línguas e, ainda assim, lá estava ela, naquele canto gregoriano de três ou quatro sílabas repetidas em ordem aleatória. Não aprendi a orar em línguas, não, em vez disso, frustrava-me tentando aprender. Pois me diziam “Deixe que o Espírito Santo o conduza, solte-se.” E eu fiquei com um ponto de interrogação me assombrando: como é que eu faço isso? Ai ai ai, eu não prestei atenção (de novo!) então não sei como é que se faz direito! Não podiam repetir essa explicação?

Resolvi tentar assim mesmo. Ia soltando as sílabas e, nossa, isso não parece uma língua, eu estou apenas enrolando. Droga, cadê esse Espírito Santo que não me orienta? Isto está muito repetitivo! Pensando bem, todo mundo está repetitivo, isso é muito estranho. Faz tempo que não digo nenhuma sílaba com 'o', vou dizer uma agora, pra variar.
Isso, Gustavo! Deixe que o Espírito Santo o conduza!
Droga! Por que ele falou isso? Isso só me fez perceber que o Espírito Santo obviamente não está me conduzindo. Enfim, vou enganando enquanto eu posso.

Estes pensamentos viriam à tona toda santa vez que o povo começava cantar aquela coisa esquisita.

Isso não era a única coisa que me frustrava. Aquela história toda de “ser você mesmo”, não me explicaram direito como é que se fazia aquilo, não me deram um exemplo de como eu posso deduzir, a partir do que eu vejo ou sinto, qual seria a ação que minha alma, meu verdadeiro eu, ou mesmo Deus ou sei-lá-quem queria que eu tomasse. Ainda hoje tudo isso me é muito confuso, matemática é muito fácil de entender, até mesmo as disciplinas de doutorado são moleza, mas vai entender o que eles queriam dizer!

Alguns meses depois, a tentativa de entender e frustração por não conseguir levar-me-iam ao extremo. Eu tenho mania de grandeza. Hoje eu sei que não posso me deixar levar por ela, embora ela seja uma excelente fonte de incentivo. Na época, eu não possuía esta maturidade.

Conclui que matar animais era errado, eles são obras divinas, nascemos para conviver com eles. Mas se matar animais é errado, matar insetos também é errado. Como o mundo é mal, matando baratas e ratos e formigas como se lhes fossem direito! Certa vez, minha mãe mandou-me matar uma barata, eu, sem lembrar da minha nova filosofia, pisei-a e a coitada estremeceu, girando em círculos, exibindo dor provavelmente lancinante. O que eu fiz? Trai a Deus matando uma barata!
Mate logo, assim é pior! – disse minha mãe, ao ver que eu tinha dó do bicho.
Percebi que ela tinha razão e realizei a eutanásia.

Eu era viciado em jogos. A quem eu estou enganando, eu sou viciado em jogos! Conclui, na época, que meu vício era maligno e a fonte dessa maldade, é claro, era o meu Dreamcast. Destruí-lo-ei, fá-lo-ei em pedaços. Sim, fá-lo-ei! Deus, perfeito, criou-nos para viver na natureza, teríamos tudo o que precisávamos, para quê toda essa tecnologia com a qual o homem cercou-se por conveniência? Os seres humanos agiam por conveniência, como o Silvanei havia dito, mas mesmo os laetares estavam errados: eles ainda usufruíam dos frutos demoníacos da sociedade, assistiam televisão, jogavam, enfim. Por isso, nunca se tornariam santos, mas eu sim!

Um dia, mudar-me-ei à Amazônia, onde poderei viver em plenitude com a natureza. As onças não me atacarão pois minha fé as impedirá disso. Espere aí, estou sendo orgulhoso, como posso ter certeza que terei fé o bastante para isso? Deverei, naquele momento decisivo, ser incorruptível, infalível, ou a onça dilacerar-me-ia!

O medo de não ter fé o bastante me segurava no mundo real, mas não o suficiente.

Peguei uma chave de fenda no carro do meu pai, abri a vítima para matá-la por dentro. Olhei, será que eu faço isso mesmo? Pensei que, enquanto existisse aquele aparelho, o meu vício me dominaria, eu não podia deixar! O videogame estava ligado na tomada, tomei um choque, o aparelho parou de funcionar. Liguei, desliguei, nada. Droga, O que eu fiz? Desliguei, esperei um tempo, liguei, funcionou. Ufa!

Mas por que eu estou aliviado? Eu vou destruí-lo! Ah, diabo, pensa que me domina? Desliguei da tomada, puxei um fio, crack. Eu entendo muito bem aqueles risos doentios saindo das bocas dos insanos que por vezes aparecem na televisão. Sim, eu conheço bem aquela sensação, aquele gozo sinistro, riso de insanidade, mas silencioso, tinha vergonha do que fazia.

Continuei a loucura, ouvi um barulho, assustei. Era meu pai que chegava para o almoço. Deixei a minha obra de arte no quarto da frente, onde, sabia, meu pai não entraria para ver, não tinha porque. Não, não tinha coragem de contá-lo, apesar da minha grande fé. Nossa, como eu era virtuoso!

Almoço terminado. Minha irmã eventualmente entrou no quarto da frente para ver o que eu fazia.
O que você está fazendo?
Gelei.
Eu estou destruindo o videogame.
Olhei, uma pausa, sorri para minha irmã, sabia que ela entendera a minha lógica inegável e já se sentia orgulho do que eu fazia naquele instante. Talvez ela não entendesse tudo ainda, mas eu acreditava que, naquele instante, ela estava do meu lado. Ela se foi. Mas minha irmã não estava insana como eu, assim como não estavam minha mãe e meu pai.

Fui para o catecismo, voltei, estavam minha mãe e meu pai sentados no sofá da sala. Filho, sente-se. Nervosismo.
Filho, – minha mãe, – você por acaso percebeu que seu videogame não estava funcionando e tentou consertá-lo sozinho? Depois viu a besteira que fez e escondeu os pedaços do videogame no meio dos brinquedos?
Não, mãe, você acha que eu sou louco? Não, eu o destruí porque queria.
Isso, é claro, fazia de mim alguém perfeitamente normal.

Pausa para tentar entender a minha afirmação. Expliquei a minha lógica infalível.
Você conversou com alguém da Comunidade Laetare antes de fazer isso? Por que não conversou com seu pai? Por que não perguntou para alguém? Sua irmã?
Mas ela viu o que eu fiz e aprovou.
É mesmo? Aprovou?
Chamemo-la aqui, – disse minha mãe.
Percebi que eu na verdade eu não acreditava que minha irmã havia aprovado o que eu fazia. O que eu havia feito, sabia, era muito insano para que minha irmã aprovasse. Abaixei a cabeça, fixo no tapete. Burro! É claro, minha irmã disse que não aprovou, que não tinha nada a ver com isso, não me envolva nesta insanidade!

Insanidade.

Não tome decisões drásticas assim, sem conversar, filho! Cabeça vazia, oficina do diabo! Quando você não tiver aula, você vai ajudar seu pai no trabalho.
Percebi que não era tão virtuoso assim, sentia preguiça de ir trabalhar com meu pai, detestava ficar naquela oficina e, na maior parte do tempo, sem fazer nada, apenas esperando, aquele cheiro forte de oficina, de ferro.

Graças a Deus por minha mãe! Por assim dizer.

Pensei, então: meu erro foi não seguir direito o que a Comunidade Laetare, ou melhor, o Silvanei dizia. Meu amor-próprio estava ferido, estava abatido, humilhado, eu estava na forma ideal para tentar seguir as ordens do idealizador como faziam as outras crianças laetarianas.

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