quarta-feira, 27 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 5: Dúvidas

O medo do fracasso que significava deixar a Comunidade Laetare e, por consequência, acabar no inferno não era a única coisa que perturbava a minha cabeça o tempo todo. Antes e também depois da minha longa e dolorosa estadia na Laetare, tinha várias dúvidas que viriam à tona cada vez que eu pensava em religião.

Tinha 8 ou 9 anos de idade, acredito, quando assisti o filme Os Dez Mandamentos pela primeira vez. Nossa, adorei, assisti uma, duas, três vezes, Moisés, uma pessoa que era escolhida desde que nasceu, especial, fazia mágicas impressionantes, não como os truques dos mágicos, mas mágica de verdade, com a marca registrada divina. Incrível! Ele ergueu as mãos, soltou um grito, Deus dividiu as águas, nossa, que legal!, e, quando o exército egípcio estava passando, ele, ele... ele os matou...

Foi aí que caiu a ficha: Deus era assassino. Eu não tinha coragem de revidar e, Jesus, ele também não gostava. Era o que me diziam no catecismo: ele oferecia a outra face, embora eu não entendesse muito bem o que isso queria dizer, já que a gente só tem uma face. Mas Deus não só revidava como matava milhares de pessoas. E, é claro, as mortes eram desnecessárias, havia muitas outras formas de resolver o problema.

Se ele conseguia falar com Moisés, questionava, por que ele não falou com o faraó? E por que que o faraó, mesmo vendo fenômenos completamente miraculosos que fariam qualquer pessoa de hoje em dia tremer, quanto mais alguém daquela época, não ouviu Moisés? Por que Deus, que é tão poderoso, não fizera alguma coisa que convencesse o grande líder do Egito a deixar os hebreus irem livremente? Essa dúvida assombrar-me-ia ainda mais quando eu encontrasse, com a ajuda dos meus pais, a passagem onde diz que Deus endureceu o coração do faraó para que ele não se arrependesse.

Lembrava-me dos gritos de quando Deus enviou seu anjo para matar os primogênitos. Morreram as crianças, aos gritos. Aquele anjo sombrio, aquela fumaça verde esquisita. Anjo? Achei que anjos fossem bonzinhos! Aquilo também fez-me pensar no inferno. Como Deus seria capaz de mandar alguém ruim para o inferno? Jesus dizia para perdoar, ensinaram-me que deve-se perdoar, por que Deus não era capaz de fazer o mesmo? E jogava no fogo ainda por cima, nossa, isso é mau!

Minha mãe não fora capaz de tirar a minha dúvida, minha primeira grande dúvida: como Deus, sendo bom, seria capaz de criar um inferno? Esta sombra acompanhar-me-ia por toda a minha vida religiosa. Por algum tempo, deixei de acreditar no inferno e, ao contrário do que muitos pensariam, não me tornei mau por isso, aliás, ainda era muito religioso.

Eu tinha entre 11 e 13 anos e chegou um padre novo na cidade, o padre Luiz, jovem e cheio de disposição. Iniciou um curso bíblico, teologia. Meus pais frequentaram-no por um ano e eu ia com eles. Não entendam a bíblia ao pé da letra, dizia o padre, as coisas não aconteceram exatamente assim. Dilúvio, impossível, Adão e Eva, não aconteceu exatamente assim, não, isso são formas que o povo antigo tinha para retratar suas próprias histórias. Os números eram simbólicos, ninguém vivia milhares de anos, nem todos os milagres de Jesus foram necessariamente milagres, não levem ao pé da letra...

Aquela ideia explodia dentro da minha cabeça, agora sim a história de Moisés fazia sentido: simplesmente não acontecera daquela forma. Eu lia as primeiras páginas, a introdução da minha bíblia Ave Maria: este livro não tem valor histórico ou científico, apenas valor de fé. Para então encontrar o verdadeiro significado das escrituras, era necessário estudo, preparação e fé, só as pessoas realmente qualificadas poderiam entendê-las.

Pouco tempo depois, aprendi sobre o início do universo e sobre a teoria da evolução das espécies e não tive barreira alguma em aceitá-las. Para mim, era muito mais empolgante e fazia muito mais sentido que aquela velha história de criação bíblica.

Fiquei surpreso e triste um ano depois quando meus pais disseram que não iriam mais. E eu, apesar de insistir e teimar, também não iria. Este curso fora, para mim, a única coisa associada à religião que realmente me empolgara e agora chegara ao seu inevitável fim. O acampamento e o retiro de crisma que ainda viriam seriam empolgantes mas não me dariam a mesma sensação de curiosidade e descoberta.

Comecei a desacreditar em várias coisas: anjos, demônios, diabo, inferno, tudo parecia mera invenção dos escritores da bíblia, histórias bobas, sem motivo de ser e sem sentido. Anjos seriam no máximo uma personificação da voz divina falando à sua mente, os demônios, apenas tentações, e o inferno, nada mais que metáfora para o sentimento de culpa. Nem em milagre de santo eu botava muita fé. Infelizmente, a minha liberdade em acreditar apenas no que fazia sentido para mim não duraria para sempre.

O que eu aprendera no curso bíblico entraria em contradição, mais tarde, com os dizeres do livro do padre Jonas Abib, distribuído entre os laetares, que dizia que todos podem e devem ler a bíblia, desde que siga cuidadosamente uma determinada sequência de passos. Detestava a ideia de voltar ao antigo testamento e tentar tirar uma mensagem escondida do meio daquela brutalidade toda, mas acreditava quando diziam que eu ia gostar de fazer o diário uma vez que eu me acostumasse. Via membros da Laetare lendo o que estava escrito e levando ao pé da letra, acreditava ser um absurdo.

Senti-me forçado a voltar a acreditar em tudo o que eu não acreditava. Mas seria possível acreditar em algo que não faz sentido para você? Não, não seria, o que é possível e eu fiz, entretanto, foi firmar o compromisso de fingir e confirmar para quem quer que me perguntasse que isso tudo era real: anjos, demônios, inferno e tudo mais. O engraçado é que eu acabava tendo a ilusão de que eu acreditava, mas tinha um desconforto toda vez que alguém falava em anjo. Quando alguém dizia algo do tipo:
Eu fiquei me perguntando: como pode Deus ter criado o inferno? Mas eu pensei bem e...
Então eu erguia a cabeça e arregalava os olhos, ansioso pela resposta. Decepção: mais uma explicação que simplesmente não respondia a questão, apenas enrolava.

De vez em quando, durante o abastecimento, um ou outro falava “Deus está me dizendo isto, isto e isto.” Certa vez estava eu lá tendo uma “experiência religiosa”, em estado de transe. Para quem já orou, meditou, concentrou-se num ideal para a sua vida ou mesmo ouviu aquela música inspiradora e sentiu aquela sensação forte deve saber do que eu estou falando. Sim, eu já tive “experiências religiosas” em cada uma destas situações, só nunca usei algum tipo de droga para ver se o efeito é o mesmo. Não estou sendo irônico ou provocativo, apenas honesto.

Neste estado a gente tende a ter uma imaginação desconexa, assim como quando a gente está sonhando. Imaginei uma árvore grande e seca, onde havia um ninho de pássaros, e pensei: árvore seca pega fogo muito fácil. Então automaticamente imaginei alguém botando fogo na árvore, coitado dos pássaros. Eu acreditava, ou talvez seja mais preciso dizer: eu queria que aquela fosse uma mensagem divina, mas daquele jeito não fazia sentido. Poderia eu modificar a história de forma a fazer sentido? A versão final do conto é que haviam dois pássaros, duas árvores e a árvore feia, que agora era grande, foi a que não pegou fogo.

Aproveitei um momento de silêncio para começar a falar: “Deus me contou uma história...” Caro leitor, não se exaspere, eu tinha a ilusão que fora Deus quem havia me revelado aquela história, ainda que tenha sido eu que inventei e a distorci completamente da versão original, não por maldade, mas numa simples tentativa de tentar entendê-la. A interpretação da “parábola” era que devíamos confiar no que é grande, não no que é belo.

Eu não fui o único que acreditou que aquilo fora uma mensagem divina. De tempos em tempos, recordar-me-ia daquela anedota e sentiria desconforto com a dúvida que aquilo não era uma mensagem divina, embora eu confiasse que ela era prova substancial da existência divina, ou de que continuar na Comunidade era a coisa certa a fazer.

Apesar de lá falar-se muito a respeito de enganar a si mesmo, não me dava conta.

Eu sabia que a Comunidade Laetare era criticada por diversas pessoas da cidade. Lá dentro falava-se muito em tribulação, e eu confiava, sem motivo, nessa desculpa. Porém, a princípio, pouco depois de ter ouvido falar de tais críticas, desejei saber se elas tinham algum fundamento. Não, caro leitor, eu não era muito esperto: ao invés de consultar as pessoas que criticavam para ver o que elas achavam e verificar se as críticas delas faziam sentido, resolvi consultar... a bíblia!

Pedi para Deus que me mostrasse a verdade a respeito daquele grupo que eu pretendia continuar participando e abri a bíblia uma vez numa passagem aleatória. Era realmente aleatória, não tinha relação nenhuma. Rezei novamente por uma intervenção divina, abri de novo. De novo, não respondia nada. Repeti o processo pela terceira, pela quarta, pela quinta... Olhei em uma das páginas abertas, não tinha nada relacionado, mas, na outra página... Nossa, caiu bem na parte que Jesus comparava fariseus e escribas a lobos disfarçados de cordeiros! Isso só pode ser uma mensagem divina dizendo para eu me afastar daquela comunidade maligna! Não é possível que seja mera coincidência!

Chamei minha mãe. Contei o que eu descobri, mas escondi debaixo do travesseiro o fato que eu havia abrido não sei quantas vezes a bíblia.
Filho, não é assim que se lê a bíblia, tem todo um processo, blá blá blá. – É, eu já “sabia” disso. – O que você deve se perguntar é: você quer continuar indo lá ou não?
Querer é emocional, querer eu queria, mas eu tinha dúvida, e dúvida é racional. Como minha mãe apelou para o lado emocional, a vontade venceu a razão.

Então eu agarrei esta dúvida firmemente pelo pescoço com um braço, enquanto com o outro destrancava um baú grande e velho. Abri a tampa, e vi várias outras dúvidas lá dentro, gritando: deixe-me sair, deixe-me sair! Não! Joguei com força aquela que eu segurava para dentro do baú, fechei-o e tranquei-o a dez voltas de chave. Chutei e o baú da ignorância deu um pequeno pulo.
Dúvida, não, não tenho dúvida nenhuma, minha fé é inabalável!

Alguns dos servos, eu viria a saber, ao sair de lá, fariam críticas por vezes severas à Comunidade. Nunca soube, a não ser anos mais tarde, que algumas delas eram pessoais, dirigidas ao SIlvanei. É claro que nunca nos contavam a respeito do que as pessoas que nos abandonavam haviam dito ou por qual motivo elas se foram. Duvido que alguma delas tenha sido levada a sério ou mesmo que alguém refletiu a respeito delas, embora seja possível que alguma tenha sido mencionada numa das reuniões que Silvanei realizava com alguns que estavam um pouco abaixo dele na hierarquia. Lá, críticas severas eram consideradas testes de fé, e o coordenador era orgulhoso demais para levar qualquer opinião contrária a sério.

Porque a opinião contrária, é claro, é sempre um teste divino para verificar se você tem fé o bastante. Não, nunca é o próprio Deus enviando uma pessoa física para dizer-lhe que você está fazendo algo errado. Não pode ser, como assim Deus virar-se contra Mim, como poderia Eu estar errado? Se ele estivesse querendo dizer que eu estou no caminho errado, Ele diria a Mim, pessoalmente, assim como ele contou aquela história de pássaros e árvores àquele menino perdido que anda por aqui! Não, não posso estar errado, eu estou agindo exatamente conforme o que eu conduzo, quero dizer, leio na bíblia!

Enquanto eu a frequentava, não houve uma atividade sequer da Comunidade com algum propósito verdadeiramente altruísta. Aulas de violão, dança, canto, oficinas de diversos tipos: apenas para servos e noviços. A função de cada evento era sempre o doutrinamento de pessoas, porque pessoas que são católicas que simplesmente vão à igreja aos domingos não vão para o céu, são pessoas más, temos que salvá-las do fogo do inferno! E pior, quantos jovens hoje em dia que nem sequer vão à igreja? Pois, claro, se hoje não vão à igreja, amanhã estarão roubando e matando e usando drogas e se prostituindo! Quem é que já viu uma pessoa que não vai à igreja e que não seja um criminoso da pior espécie? E é claro que não adianta ir às escolas e instruir as crianças a respeito das drogas ou fazer trabalhos sociais que ocupem-nas, tornem-nas mais felizes e consequentemente menos propensas a aventurar-se no mundo das drogas, não, não, nada disso, devemos tornar estes jovens em religiosos fanáticos! Porque o mundo não tem religiosos fanáticos o bastante!

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