quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Em busca do Jesus histórico 1: O sepulcro vazio


Galileia, século I. Ouvem-se muitos boatos que um Galileu chamado Jesus teria ressuscitado da sua tumba. Como é que foi? Eu convido-o, caro leitor, a fazermos um julgamento e você será o juiz. Temos quatro testemunhas: Marcos (16), Mateus (28), Lucas (24) e João (20-21). Vejamos o que eles têm a dizer.

Quem encontrou túmulo vazio? Marcos diz que foram Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago, e Salomé. Mateus desmente, diz que foram apenas as duas Marias. Lucas fala que Mateus está certo, mas que Joana também estava lá.

– Não, diz João, quem estava lá era apenas Maria Madalena, nas duas vezes.
– Duas vezes? Como assim duas vezes, João?
– É, claro, duas vezes, ela foi a primeira vez, viu que o sepulcro estava aberto e voltou correndo avisar Pedro e João que o corpo havia sido retirado. Eles foram correndo ao túmulo e viram que Jesus não estava lá. E depois Madalena foi mais uma vez.
– Não, diz Lucas, os dois anjos do lado de dentro contaram para Maria Madalena e as outras duas mulheres que Jesus havia ressuscitado, só depois é que elas contaram para os apóstolos e Pedro correu para o túmulo. Então não tinha como elas terem dito que “o corpo foi retirado”, elas já sabiam que ele tinha ressuscitado. E só Pedro voltou correndo, João não foi, não.

Marcos e Mateus se entreolham. Que história é essa de Pedro ir para o túmulo? Não fiquei sabendo de nada, não. Ficar sabendo? Por acaso alguém viu alguma dessas coisas acontecer?

Não, ninguém viu nada e eles não são quem você pensa que eles são. Eles ouviram a história por aí e estão contando. João não é João, o apóstolo. Ele provavelmente nem se chama João e nem sequer conheceu Jesus pessoalmente. Aliás, o mesmo se diz de Marcos e Mateus. Lucas? Bem, talvez seja ele mesmo, mas Lucas também não foi discípulo de Jesus e não é historiador, como muitos dizem por aí. Marcos nem sequer é judeu, caiu de paraquedas no meio da confusão.

Marcos toma a palavra:
– Esperem pouco, vocês falaram em dois anjos? Que dois anjos? Só fiquei sabendo que tinha um jovem dentro do túmulo. Talvez ele fosse anjo, mas...
– Dentro do túmulo? De forma nenhuma, diz Mateus. Era só um anjo, um anjo especial, ele desceu dos céus, houve um terremoto e os guardas do lado de fora que guardavam o túmulo desmaiaram.

Guardas? Que guardas? Os outros três se entreolharam.
– E então, continuou, esse anjo ficou sentado na pedra que ele rolou da entrada do túmulo, presumivelmente no lado de fora. Não tinha como Maria Madalena ir lá e voltar correndo sem ter visto o anjo sentado na pedra.
– Não, responde Marcos, o anjo estava sentado do lado de dentro.
– Não, olha, nessa eu estou com o Lucas, diz João. Haviam dois anjos, eles estavam do lado de dentro, sentados no lugar onde Jesus tinha sido deixado, quando...
– Sentados? Estranha Lucas. Que sentados que nada! Os dois anjos se postaram diante delas, eles estavam de pé!
– Não, João retruca, eles estavam sentados quando Madalena se inclinou na entrada, mas não deu tempo deles falarem nada, porque apareceu Jesus. E assim que Madalena soube que ele estava vivo.

Não, não, não, todos eles discordam de João, os anjos já haviam dito que Jesus ressuscitou antes de qualquer aparição dele. E esta se deu bem longe do túmulo. Vamos lá, vamos tomar um pouco de fôlego, quem sabe um cafezinho, que tal? Esqueçamos o túmulo e tentemos esclarecer como foi a tal aparição. Afinal, é o mais importante, não é?

Lucas começa a narrar:
– Aparição? Bem, estavam dois discípulos indo em direção a Emaús, um povoado próximo a Jerusalém, e Jesus começou a andar junto com eles. Eles nem perceberam, começaram a conversar e tudo mais, e, quando chegaram, convidaram Jesus para ficar com eles. Jesus partiu o pão, aí eles se tocaram, mas ele desapareceu, assim, puf, do nada! Nossa, ele está vivo, ele está vivo! Mais do que depressa, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém. Os apóstolos estavam em Jerusalém, mas eles não acreditaram nos outros dois, até que Jesus apareceu lá e começou a falar e...

– Jerusalém? Pergunta Mateus.
– Sim, Jerusalém. Não foi lá que Jesus foi crucificado?
– Sim, mas os onze apóstolos foram para a Galileia quando as mulheres contaram a eles que elas viram Jesus em pessoa. Jesus tinha pedido para elas avisarem aos apóstolos para irem à Galileia.
– Sim, foi na Galileia, responde Marcos, mas foi o jovem de dentro do túmulo que havia dito para elas e para dizer aos apóstolos que Jesus os esperava na Galileia. Mas elas ficaram com medo e não contaram a ninguém. Ah, não, espere aí, de repente, não sei por que, mudei de ideia. Primeiro, Jesus apareceu a Madalena, daí Madalena anunciou aos discípulos. Depois Jesus apareceu a outros dois deles e, por último, aos onze apóstolos, criticando a falta de fé deles e...
– Onze? Interrompe João. Não, da primeira vez eram só dez, Tomé, aquele incrédulo, não estava com eles. Ele veio depois e não acreditou que Jesus tinha ressuscitado e...
– Ah, João, de novo você com essa história de “duas vezes”? E não sei nada a respeito de Tomé ser incrédulo, de onde você tirou isso? Maria foi ao túmulo duas vezes, e agora Jesus também apareceu duas vezes aos apóstolos? Como assim?
– Duas? Não, não foram só duas, foram três. Teve uma vez que eles estavam pescando no mar de Tiberíades, mas não tinha peixe, e...
– Ahá! Tiberíades! Não falei pra vocês que foi na Galileia?
– Ah, não, mas isso foi só da terceira vez.
– E das outras duas vezes?

Os olhares atentos e fixos voltaram-se para João.
– Eu não sei.

Merda!

Certo, certo, vamos tentar uma pergunta simples. Ao menos assim talvez eles concordem em alguma coisa. Ao menos todo mundo concorda que pelo menos Maria Madalena foi ao túmulo, não é? A que horas foi isso?
– Ao nascer do sol.
– Ao raiar do dia.
– Eu só sei que foi muito cedo.
Eles sorriram. Pela primeira vez parece que concordavam em alguma coisa.

– Não! Foi de madrugada!

João, seu maldito estraga prazeres!


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6 comentários:

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    veja http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=31436&categoria=M

    Abraços com gratidão
    Lisandro Hubris

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  2. muitas vezes testemunhas de um assassinato( ou evento qualquer) discordam de dezenas de detalhes do que aconteceu... os investigadores costumam se concentrar na parte em que as testemunhas concordam e não nas discrepâncias...

    que nesse caso especifico é: O sepulcro estava vazio!

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  3. É impressionante como essa estoria fantasiosa está durando e parecendo verdadeira para uma grande parte da humanidade. É tanta fantasia que se torna difícil alguma coerência. O túmolo ficava na propriedade de José de Arimatéia, Sinedrista seguidor do mestre, que poderia ter subornado os guardas para retirar o corpo. ou os apóstolos espalharam o boato da ressurreição como a subida ao céu.

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  4. Sim, Anônimo, o sepulcro estava vazio. Há inúmeras explicações possíveis. Por exemplo, Mateus 28, 11-15 sugere que soldados que vigiavam o túmulo alegavam que o corpo havia sido roubado. Isso pode ter sido verdade.

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  5. Muito bom! E parabéns pela paciência da comparação.

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