quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Em busca do Jesus histórico 2: Jesus existiu?


Jesus Cristo realmente existiu? Não, ao contrário do que muito se pensa, a resposta dessa pergunta não é óbvia. Muitos cristãos, com sua fé e cultura, nunca se permitiram fazê-la, o que é desapontador: se não fazem essa pergunta, como podem sequer conhecer este homem? Muitos ateus, seja por falta de curiosidade ou por uma atitude fundamentalista antirreligiosa, apontam para a falta de relatos de testemunhas oculares e de historiadores da época e, colocando a carroça na frente dos cavalos, condenam-no como um mito. Vamos tirar essa história a limpo. Jesus provavelmente existiu e há boas evidências para sustentar essa afirmação.

Após uma análise crítica dos evangelhos, parece-nos natural afirmar que é difícil dizer até que ponto os evangelhos estão falando a verdade, ou sequer se houve um homem que tenha sido inspiração para todos estes livros. Afinal de contas, existiram muitos mitos na antiguidade a respeito de deuses encarnados que a grande maioria dos historiadores sérios não diriam, de forma alguma, que tenham sido baseados na vida de algum homem. Pode ter sido um grande mal entendido: alguém escreveu uma história fictícia, inventada, e outros começam a identificá-la como verdadeira. Enfim, existem várias posições defensáveis do ponto de vista histórico. Mas, ainda assim, nenhuma outra teoria parece explicar melhor as evidências do que afirmar que, de fato, existiu um galileu no século I de nome Jesus e que morreu condenado por Pôncio Pilatos.

Analisemos as evidências. Temos vários manuscritos que foram compostos nos séculos I e II e que mencionam ou relatam histórias de um indivíduo chamado Jesus. Existem vários pontos em comum. Um deles é que este indivíduo foi crucificado e outro é que estes textos estão considerando-o como o messias. Seria este o retrato natural de um messias para um judeu do século I? A resposta é não.

A ideia de messias que se tinha na época de Cristo é de um guerreiro que lidere uma luta armada e livre o povo de Israel das mãos dos romanos. Mas este messias que foi humilhado, cuspido e que morreu numa cruz. Alguém poderia afirmar que o antigo testamento previu um messias que sofresse, mas basta uma leitura destas “previsões” para perceber que elas não estão falando do messias. Alguém poderia dizer que trata-se de uma “inspiração divina”, mas esta “inspiração” (ainda que suponhamos que ela seja real) só foi notada depois da história ter se espalhado.

Além disso, de acordo com a história, ele teria sido batizado por João Batista. Batizado? Mas por que um messias seria batizado? Não é mais natural que um messias idealizado como um indivíduo perfeito não precisasse ser batizado? Aliás, é possível ver muito bem que os primeiros cristãos não se sentiam muito confortáveis com a ideia de um Jesus batizado e davam desculpas por isso ter acontecido.

João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”
Mateus 3:14

Isso sem contar toda a reverência que ele faz a Jesus em todos os evangelhos.

Este messias também era galileu, mas as profecias diziam que ele seria de Belém, na Judeia! Enfim, quanto mais se investiga, mais parece que a história foi adaptada para cumprir as profecias do antigo testamento do que uma história que foi inventada com o propósito de cumpri-las.

Bem, por outro lado, muitos ateus vão virar-se e apontar para a falta de relatos da época de Jesus. Afinal de contas, o evangelho mais antigo conhecido, o “de Marcos”, data de aproximadamente 70 d.C. As cartas de Paulo foram compostas a partir de 50 d.C. Onde estão os relatos contemporâneos, de aproximadamente 30 ou 40 d.C.? E os historiadores que poderiam se interessar por ele e não se interessaram?

Primeiro, deixemos bem claro uma coisa. Estamos falando de um país insignificante (do ponto de vista político ou econômico), cujo povo vivia na área rural. Quantos daquela época sabiam ler e escrever? Isso era raro na antiguidade. E seria esperado que algo que fosse escrito na época sobrevivesse até os dias de hoje? De forma nenhuma! Ao menos não os originais. Quando se fala de manuscritos antigos, não existem manuscritos originais, e isto vale não só para os manuscritos da bíblia como também para qualquer outro, de qualquer época antiga. O que resta nos dias de hoje são cópias de cópias de cópias... feitas séculos depois. É exigir demais querer um relato ao vivo dos passeios de Jesus pela Galileia. Daqui a pouco também vão querer vídeos com as pregações dele.

Segundo, Jesus não era o único da época dele que se dizia profeta. Um deles, chamado Athronges, que se denominava “rei dos judeus”, conseguiu atrair um número de seguidores o suficiente para combater tropas romanas por talvez até dois anos. E ele foi derrotado em 4 a.C. Um profeta Samaritano anônimo atraiu uma “grande multidão” para a montanha sagrada de Gerizim onde, segundo ele, ele faria uma “revelação mística” aos judeus, e também teve que ser combatido por tropas romanas em 36 d.C., e eram tantos que enviaram soldados e cavalaria romana para contê-los. Entre 44 e 46 d.C., um indivíduo, chamado Theudas, prometeu a seus discípulos que partiria o rio Jordão ao meio, e, de novo, foi contido por tropas romanas, incluindo cavalaria. Teve outro profeta judeu, este vindo do Egito que, por volta do ano 66 d.C., conseguiu atrair 30 mil homens até Jerusalém! Incrível! 30 mil homens! Ele dizia que os muros da cidade iam cair milagrosamente para que eles pudessem tomar a cidade. Tropas romanas também tiveram que contê-lo.

E quais historiadores relatam estes profetas? Muitos, você deve imaginar? Não, apenas um historiador relata brevemente estes indivíduos, Flávio Josefo, no final do século I. Se um indivíduo que conseguiu atrair 30 mil homens até a cidade de Jerusalém não chamou atenção o suficiente para que mais de um historiador da época o entrevistasse, por que isso aconteceria com um nazareno que nem sequer teria se envolvido em conflitos violentos e que entrou em Jerusalém montado num jumento? Pelos relatos dos evangelhos, Jesus não parece ter conseguido reunir mais de 10 mil homens em nenhuma ocasião. Ainda que ele tivesse atraído 50 mil homens para si, os historiadores não dariam a mínima. O indivíduo notável que conseguiu levar 30 mil homens nem sequer foi nomeado pela história.

Mas então por que o historiador Josefo não dedicou algumas linhas do seu documento, Antiguidades Judaicas, para falar de Jesus? Bem, o fato é que ele citou Jesus duas vezes (versão em português), além de ter citado João Batista. Na primeira, ele relata brevemente o apedrejamento de “Tiago, irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Às vezes, este relato é contestado pois alguns manuscritos (que, lembre-se, são cópias de cópias de cópias...) não trazem escrito “que era chamado Cristo”, levando a entender que este trecho foi adicionado posteriormente. Acontece que é mais provável que ele tenha sido retirado, visto a tendência do cristianismo da Idade Média de achar que chamar alguém de irmão de Cristo era heresia. Além disso, o cristão Origen (184–253) cita este relato de Josefo com o trecho “que era chamado Cristo”, o que dá mais sustentação à ideia de que este fazia parte da versão original.

O segundo relato, o chamado Testimonium Flavianum, é particularmente suspeito porque é praticamente uma profissão de fé cristã e Josefo não era cristão.

Havia neste tempo Jesus, um homem sábio [, se é lícito chamá-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer]. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios.[Ele era o Cristo.] E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram;[ porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele]. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje.
Citação da Wikipédia

Entretanto, se considerarmos que as passagens em negrito foram interpolações (isto é, adições posteriores ou alterações do texto), o texto restante tem as mesmas características de linguagem que o restante do livro, então é bastante plausível que Josefo tenha escrito este relato ao menos em parte. Esta ideia é sustentada por dois manuscritos (na verdade três, mas um deles, o árabe, é um pouco duvidoso) onde, em vez de estar escrito “Ele era o Cristo”, está escrito “Ele era tido com sendo o Cristo”. Outra evidência a favor disso é que o antigo teólogo Origen afirmou que Josefo não acreditava que Jesus era o messias.

O trecho “seguindo a sugestão dos principais entre nós” também é omitido nestes dois manuscritos. Esta exoneração de culpa de Pilatos é encontrada nos evangelhos, o que justifica um cristão, ao fazer uma cópia do relato, querer acrescentá-la. Isso também da sustentação à ideia que Pilatos não exitou em condená-lo, mas que isto foi uma construção sobre a história verdadeira, e também sustenta a teoria de veracidade parcial do texto.

A última suspeita sobre este relato é que ele parece quebrar o texto, pois é uma adição posterior. Oras, mas adições assim se encontram em várias partes do livro de Josefo. Isto porque este era seu estilo de escrever: escrevia vários relatos e depois ia inserindo outras partes entre os parágrafos.

É perfeitamente possível, do ponto de vista histórico, sustentar a ideia de que Jesus não existiu, mas não é tão simples quanto muitos pensam que é e, ainda assim, a maioria dos estudiosos do novo testamento não suportam essa ideia. E não é por serem tendenciosos: muitos deles não são cristãos, e mesmo os historiadores cristãos do novo testamento fariam outros cristãos terem um ataque cardíaco se eles subissem no altar de uma igreja para explicar quem Jesus foi e o que ele fez. De todas as vítimas da falácia do espantalho, o Jesus histórico é provavelmente a maior delas.

A “falta de evidências” da vida de Jesus não é nada anormal em termos de história da antiguidade. Isso é o esperado. Além disso, de nada vale tentar apagar Jesus Cristo da História. Em vez disso, vale mais a pena tentar descobrir quem ele realmente foi e não confiarmos simplesmente no que dizem que ele foi. Não devemos tentar alterar a verdade, deixem que espalhem as mentiras aqueles que têm medo da verdade. Em vez disso, procuremos a verdade e assim, como disse um antigo galileu, a verdade nos libertará.


< Parte 1  Parte 3 >

5 comentários:

  1. É, vamos seguir em frente, e tentar nos esclarecer cada vez mais sobre isso.

    ResponderExcluir
  2. vejam este site e vejam as fontes que ele cita:

    http://vanessaepituca.blogspot.com/2010/07/ha-provas-arqueologicas-de-que-jesus.html

    ResponderExcluir
  3. Carlos, eu dei uma olhada no link. Os trechos apresentados obviamente não são verídicos.

    ResponderExcluir
  4. Olá, neste blog é feita uma análise aos textos dos evangelhos:
    http://quem-escreveu-torto.blogspot.pt/
    Cumprimentos

    ResponderExcluir
  5. Olha meu amigo, lucas pode ter sem divida criado uma historia, mas o mashia existiu sem duvida, e seu nome não é Jesus. Yeshua é o seu nome ele não nasceu em uma mengedora, mas
    em uma tenda na festa de sucot tambem conhecida como festa dos tabernaculos...

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...