sábado, 29 de outubro de 2011

Em busca do Jesus histórico 5: Criticismo textual

Vimos pelos textos anteriores que não é possível confiar no que está escrito como verdades históricas. Primeiro temos o problema do telefone sem fio: a história vai passando de boca em boca e se alterando aos poucos. Segundo, temos alterações intencionais no rumo da história. Pessoas em geral ignoram que os autores deliberadamente desobedeciam a lei divina "não levantarás falso testemunho". Mas não temos escolha, estes são os relatos que temos a respeito da vida de Jesus. O que faremos então? Como escolheremos entre os relatos mais prováveis e os menos prováveis?

Como separaremos o trigo do joio?

Existem quatro critérios comumente utilizados pelos historiadores para tentar determinar quem foi e o que fez o Jesus histórico. Que fique claro que não dá para determinar com certeza se Jesus fez uma coisa ou outra, mas é possível estimar a probabilidade com que um relato tenha sido histórico ou inventado.

O primeiro é o critério dos múltiplos testemunhos:
é mais provável que tenha acontecido algo que é relatado por mais de uma fonte independente do que algo que vem de uma única fonte. É preciso notar, entretanto, que, por exemplo, se Marcos relatou um evento que não aconteceu, Lucas e Mateus também vão relatar o mesmo evento porque eles usaram o evangelho do primeiro como fonte, então não podem ser considerados fontes independentes. Um exemplo, várias fontes dizem que Jesus foi batizado por João Batista, e também que Jesus pregou contra o divórcio. Vale lembrar que, do ponto de vista histórico, as fontes fora da bíblia são tratadas com igual teor que as que estão na bíblia.

Em segundo vem a dissimilaridade: se um livro relata um evento que parece ir contra o que o autor acredita ou que ele não teria motivos para inventar, então é provável que ele não tenha inventado. Se um evento parece ir muito a favor do ponto de vista do autor, deve-se suspeitar da sua historicidade. Nota-se facilmente que cada evangelista ou cristão primitivo tem um ponto de vista, uma teologia que ele quer transmitir através dos evangelhos e das cartas.

Cada evangelho é como um óculos através do qual a gente pode tentar observar o que aconteceu. Mas os evangelhos não são neutros ou objetivos, os óculos não são incolores. Cada óculos tem uma cor diferente. Quando se olha através de um óculos laranja, tudo fica mais laranja do que realmente é. Se olhamos através de um óculos alaranjado e vemos um objeto azulado, podemos concluir que o objeto é realmente azul, e provavelmente mais azul do que estamos vendo. Agora, se vemos um objeto laranja, devemos suspeitar que aquele objeto não seja tão laranja quanto parece. Talvez nem sequer seja real, mas apenas uma mancha no vidro.

Na parte 2, eu apresentei o critério da dissimilaridade para defender a existência histórica de Jesus, usando como exemplos o batismo por João Batista e a crucificação. Ou seja, de acordo com este critério, estes eventos são provavelmente históricos. Os historiadores costumam ver o batismo por João Batista como uma pista de que Jesus foi, de fato, discípulo deste antes de se tornar um mestre: é muito suspeito que os evangelhos tenham escondido isso de propósito, a ideia de um messias com um mestre não é muito convincente. Por outro lado, o nascimento de Jesus em Belém parece ser muito conveniente com a ideia de messias devido às profecias das escrituras, sendo assim é suspeito de ter sido inventado.

Terceiro, o critério da coerência social: os relatos que são coerentes com a cultura ou a sociedade da época são mais prováveis de ter acontecido do que os que não o são. Por exemplo, neste critério encaixa-se o anacronismo, que é a atitude comum de atribuir à história que ocorreu no passado eventos e costumes do tempo do próprio autor.
A doxologia ao final de Mateus 6:13 é comumente vista como adição posterior, sendo inclusive omitida nas melhores traduções:

E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém’.

Compare com esta tradução:

e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
Mateus 6:13
[E] não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.

A adição deste trecho foi feita por influência litúrgica. Aqui vemos que copistas adicionaram ao texto antigo uma crença vindos de sua própria época, não da época sendo relatada

Em Mateus 18, vemos Jesus criando regras para serem seguidas nas igrejas. Porém, igrejas não são da época de Jesus e uma evidência disso é que é difícil encontrar a palavra "igreja" em outros evangelhos ou mesmo neste. Vemos então que Mateus (isto é, o autor do evangelho, não me refiro ao apóstolo) escreve regras para as igrejas de seu tempo.

Os quatro evangelhos contam a história de Barrabás.

Por ocasião da festa o governador soltava um preso, a pedido do povo. Havia um chamado Barrabás, preso com outros sediciosos, os quais em um motim haviam feito uma morte. Chegando o povo, começou a pedir a graça que lhe costumava fazer. Disse-lhe Pilatos: Quereis que eu vos solte o Rei dos Judeus?

Vemos aqui o relato de um costume: Pilatos permitiria a soltura de um prisioneiro. Este costume não é relatado em nenhuma outra fonte e Pilatos, em vez de costumar ser complacente, pelo contrário, era insensível com os costumes judeus e também cruel. O historiador Josefo conta que houve um protesto dos judeus por dinheiro do templo ter sido usado para construir um aqueduto. Pilatos ordenou que soldados se misturassem com a multidão enquanto ele conversava com os judeus e, ao seu sinal, os soldados atacaram os manifestantes, ferindo e matando a esmo.

Este famigerado governador da Judeia não parecia do tipo que deixaria o povo escolher alguém para ser liberto. Barrabás é retratado como um membro de um motim que causou uma morte. Ele parece ser um zelota. Os zelotas eram uma seita religiosa que pregava que os judeus deveriam expulsar os romanos da palestina através da luta armada. Esta seita é conhecida por ter liderado a Primeira Guerra Judaico-Romana entre 66 e 73 d.C., época em que o evangelho de Marcos foi escrito. Então Marcos parece ter adicionado uma crítica a este movimento em seu evangelho: como podiam os judeus dar preferência à violência do movimento zelota em vez do pacifismo ensinado pelo Cristo?

Alguém poderia notar que o critério dos múltiplos testemunhos é a favor da existência e da soltura de Barrabás, então há uma pequena chance deste relato ser histórico até certo ponto. Por outro lado, o próprio nome Barrabás parece ter sido inventado: Bar Abbas quer dizer filho do pai. Compare isto a um dos títulos mais comuns de Jesus: filho do homem. Barrabás é um rival. É mais provável que não tenha existido.

Outro exemplo de anacronismo é a profecia de destruição do templo de Jerusalém. Discutiremos isso em outra postagem.

O último critério é o da a coerência: se alguma característica da história já foi estabelecida por outros métodos e algum relato, que não é suspeito ou descartável por algum outro critério, parece ser coerente com esta característica, então ele é, por convenção, considerado como histórico.
A partir do próximo texto, veremos qual o ponto de vista defendido por cada evangelho, quais são os óculos que cada autor coloca para enxergar a vida do famoso galileu. Estes óculos são de cores bem distintas e isto é uma pista das várias formas de cristianismo já existentes no século I.


< Parte 4 Parte 6 > 
Isto disseram seus pais, porque tinham medo dos judeus; porquanto estes já tinham combinado que se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga.
João 9:22
Barrabás, preso com outros sediciosos, os quais em um motim haviam feito uma morte.

Chegando o povo, começou a pedir a graça que lhe costumava fazer.

Disse-lhe Pilatos: Quereis que eu vos solte o Rei dos Judeus?
Marcos 15:6-9
E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim.

Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
Lucas 22:19-20
E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim.

Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
Lucas 22:19-20

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