terça-feira, 1 de novembro de 2011

Em busca do Jesus histórico 6: Jesus, Buda e a influência deste no cristianismo


Podemos encontrar muitos paralelos entre relatos a respeito de Jesus Cristo e de Siddhattha Gautama, mais conhecido como o Buda, o líder espiritual que viveu entre 563 e 483 a.C., mesmo numa análise superficial destes dois indivíduos históricos. Isso vai bem além de ambos serem líderes de duas das maiores religiões do mundo atual e a relação entre as histórias das duas personagens não é mera especulação.

A primeira relação mais óbvia é que ambos foram mestres, tiveram discípulos pregadores e foram de casa em casa para pregar as boas novas para aqueles que se dispusessem a ouvir. Este é um tema que não se encontra em outras religiões. Ambos prometiam uma nova ideia, uma nova doutrina. Ainda que Buda tenha nascido rico, ele escolheu viver como um mendigo, se sustentando a partir do que recebia nos lugares em que visitava, mas sem levar roupas extras ou a comida do dia seguinte.

Reunindo Jesus os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curarem doenças; enviou-os a pregar o reino de Deus e a fazer curas, dizendo-lhes: Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas. Em qualquer casa em que entrardes, nela ficai e dali partireis. Em qualquer cidade em que vos não receberem, saindo dela, sacudi o pó de vossos pés em testemunho contra eles.

Esse costume de não pregar àqueles que não mereciam ouvir as pregações também não é exclusividade das regras de Jesus.

E o Abençoado disse-lhes: "O Dharma e o Vinaya1 Proclamado pelo Tathagata2 brilham quando exibidos, e não quando são escondidos. Mas não deixem que esta doutrina, tão cheia de verdade e tão excelente, caia nas mãos daqueles que desmerecem-na, onde ela será desprezada e desdenhada, tratada de forma vergonhosa, ridicularizada e censurada."

1 As duas partes dos ensinamentos de Buda. Dharma é a ordem natural das coisas e Vinaya é um conjunto de regras disciplinares.2 Um título de Buda que significa que ele está acima das coisas que vem e que vão, ou que ele encontrou a verdade.
The Gospel of Buddha, Paul Carus, XVII.15 (tradução livre)

É bastante conhecido que Jesus também falou a respeito de luz e que não se deve escondê-la. Buda significa aquele que despertou ou talvez iluminado, ele era conhecido como aquele que salva o mundo do sofrimento, da miséria e da morte.

se, pois, Jesus aos judeus que o haviam crido: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos,

conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
João 8:31-32
uma hipótese acerca da origem da semelhança entre estas duas figuras históricas: os essenos. Estes eram uma seita judaica que praticava a austeridade, a pobreza e a abstenção dos prazeres mundanos. Acredita-se que a origem desta seita foi a influência de monges missionários budistas. Esta seita, por sua vez, pode ter sido fonte dos costumes que Jesus decidiu adotar.

Não estou de maneira alguma tentando transformar Jesus em um apêndice de Buda. Jesus tem várias ideias e ensinamentos próprios. Além disso, quantas pessoas da antiga Palestina não teriam olhado para os essenos com desdém? Como nós já vimos, não era comum neste local e época aparecerem profetas messiânicos pregando a violência? Quantos deles aprenderam (ou criaram!) a ideia de uma revolta pacífica? E quantos foram capazes de disseminar a ideia de que a prática  da caridade e da aceitação dos "pecadores" não só não era errado, como era o correto, o que deveria ser feito?

Hoje em dia é comum associar religião e bondade, mas esta não era uma ideia muito popular na época. As regras religiosas eram bastante arbitrárias e exclusivas. Jesus, assim como Buda, espalhou a ideia de uma religião cuja principal regra não era a idolatria, o sacrifício e o sofrimento, mas a prática da bondade. É ironia do destino Jesus (e provavelmente também de Buda) ter por fim acabado por se tornar um ídolo cujos seguidores não somente idolatram, deixando seus ensinamentos num patamar bem inferior, como também condenam aqueles que não fazem o mesmo. Isso à desvalia do personagem histórico que tanto questionava e se recusava a aceitar dogmas religiosos quando estes não faziam sentido. Aliás, aqui está outro ponto em comum.

Em seguida, Buda lista os critérios pelos quais uma pessoa sensata pode decidir quais ensinamentos aceitar como verdade. Não acredite em ensinamentos religiosos, diz ele aos Kalamas, só porque alega-se que eles sejam verdade ou mesmo pela aplicação de diversos métodos ou técnicas. O conhecimento fundado na experiência de um indivíduo podem ser questionados.
Ele adverte que as palavras do sábio devem ser ouvidas com cuidado e levadas em consideração. Em outras palavras, não é a aceitação passiva, mas, em vez disso, o questionamento constante e o teste pessoal para identificar quais das verdades você é capaz de demonstrar por si mesmo que de fato reduzem o seu próprio estresse ou miséria:
  • Não se deixe levar pelo que se aprende a partir da repetição,
  • nem pela tradição,
  • nem pelo rumor,
  • nem pelo que está nas escrituras,
  • nem por suposição,
  • nem por um axioma,
  • nem por raciocínios capciosos,
  • nem pela propensão sobre uma noção que foi ponderada,
  • nem pela habilidade aparente de outrem,
  • nem pela consideração "O monge é nosso professor."
Kalamas, quando vocês souberem por si mesmos: "Estas coisas são boas; estas coisas não são condenáveis; estas coisas são elogiadas pelos sábios; empreendidas e observadas, estas coisas levam ao benefício e à felicidade," entrem e permaneçam nelas .'

Tanto as histórias de Buda quanto de Jesus relatam milagres. Entre os possíveis milagres de Buda estão andar sobre a água e ter nascido de uma virgem. Muitos também caracterizam Buda como uma divindade. Entretanto, tem um fato bastante surpreendente em muitos relatos a respeito de Buda que não se encontra nos que são referentes a Jesus: Buda não somente não faz milagres como se recusa a realizar milagres, caracterizando-os como desprezíveis e até proibindo seus discípulos de fazerem-nos.

"Um discípulo ordenado não deve ostentar nenhuma perfeição sobre-humana. O discípulo que com más intenções e por cobiça ostenta uma perfeição sobre-humana, seja ela visões celestiais ou milagres, não é mais um discípulo do Sakyamuni.1
Eu os proíbo, ó bhikkhus,2 de empregar quaisquer feitiços ou suplicas, pois eles são inúteis, uma vez que a lei do karma governa todas as coisas. Aquele que tentar realizar milagres não entendeu a doutrina do Tathagata,"

1 Outro dos títulos de Buda. Sakya era a região em que ele vivia e muni é um título comum na Índia que significa sábio.

2 Classe de monges budistas. Nesta história, este termo foi anteriormente empregado aos ascéticos.

Ele também diz, em alguns relatos, que ele não é nada além de um homem. É mais provável (pelo critério da dissimilaridade) que Buda realmente tenha se recusado a realizar milagres. Em vez disso, ele parece deixar para o destino, ou karma, decidir quem será curado e quem não será. A prática de milagres era (e é) bastante comum, nada impede que uma pessoa acredite de forma honesta que está realizando milagres quando o que ela faz são apenas pequenos truques (veja o documentário Miracles for Sale, de Derren Brown, para convencer-se disso). Mas este não parece ser o caso de Buda.
Desculpem-me o tom provocativo, caros cristãos, mas me parece que o povo antigo tinha a mania de atribuir milagres a pessoas que não os faziam e que nem sequer alegavam fazê-los. Imaginem o que não atribuiriam a alguém que se dizia o messias e que possivelmente acreditava estar realizando milagres.

Por fim, quantos cristãos, caro leitor, você já não ouviu falar que você deve aceitar Jesus para salvar-lhe do seu sofrimento, da sua miséria interior? Como é comum falarem a respeito de como são ruins as coisas mundanas e que Jesus é o caminho para longe delas, não é? Quantos discursos cristãos sobre auto-domínio, auto-controle e disciplina não se ouvem por aí! Muitas formas de cristianismo também falam a respeito do auto-conhecimento, que é uma ideia... cristã? É mesmo? E onde, amigo leitor, está escrito isso? Na Bíblia? E quem é o autor destas ideias? Jesus? De forma alguma! Isso não está na Bíblia nem nos evangelhos! No máximo encontram-se ideias relacionadas ou que se encaixam bem com estas. Mas se não foi Jesus o autor dessas ideias, quem foi?

Oras, é óbvio, isto não só é parte da doutrina budista, como é o tema central dela!

Não parece uma tremenda ironia, caro leitor, que tantos cristãos afirmem com tanta convicção que Jesus Cristo é a única fonte da verdade e que eles, ao mesmo tempo, disseminem as ideias que vieram do fundador de outra religião? Não é estranho que eles julguem o espiritismo como "perigoso" porque este mistura o cristianismo com doutrinas hinduístas e budistas? Perigoso? Perigosa é esta hipocrisia!

Alguém poderia me perguntar: mas o que há de errado em aprender coisas com outras religiões? Nada, pelo que me consta. As religiões trazem tanto verdade quanto mentira, tanto coisas boas como coisas ruins. E, como disse Albert Einstein, "a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original."


< Parte 5 Parte 7 >

P.S.: Cometi um crime enorme ao deixar de mencionar o fato que Buda também pregava a respeito de amar a todos de forma universal. Não, caro leitor, Jesus não inventou o conceito. Talvez este tenha sido o primeiro a atentar para o fato de que deve-se amar até mesmo os inimigos, o que, na minha opinião, é a parte mais preciosa de seu ministério. Entretanto, amar ao próximo, isso era conhecido tanto para os budistas quanto para os filósofos gregos, mas, aparentemente, não para os palestinos.


Edição:  Ao escrever este texto, usei como fonte o livro "The Gospel of Buddha", que, embora eu soubesse que a história dentro dele não seria totalmente confiável, imaginei que o autor teria usado apenas textos budistas (e talvez a própria imaginação) para construir o texto. Enganei-me: o autor deliberadamente usou também os evangelhos do novo testamento (incluindo o de João) como base para seu texto, não com o objetivo de enganar ou iludir a ninguém, mas de fazê-lo mais atraente ao mundo ocidental. Este é provavelmente o motivo de às vezes Buda fazer uso de algumas expressões típicas de Jesus, como "quem tem ouvidos para ouvir, que ouça" e "a verdade vos libertará". Sendo assim, deve-se ignorar isso.

Seria mais confiável comparar os dois indivíduos utilizando os textos mais antigos que contam a história de Buda, mas é claro que isso requer tempo e, portanto, não farei isso tão cedo.

5 comentários:

  1. ADAMANTDOG DIZ: PARABENS PELO BLOG DA PRA APRENDER MUITO.

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  2. ENTÃO, SE BUDA É ILUMINADO, EU NUNCA VI ESSA LUZ...PORÉM, JESUS VEIO A MIM NUM SONHO OU VISÃO NOTURNA E EU PUDE COMTEMPLÁ-LO FACE A FACE E ELE DISSE: SENHOR PERDOAI-VOS ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM. E NESSE MESMO INSTANTE O SEU BRAÇO QUE A PRINCÍPIO ERA MAGRO E APARENTEMENTE FRACO TORNOU-SE COMO O BRAÇÕ DE UM HALTEROFILISTA, E ELE ME ERGUEU COM SEU BRAÇO FORTE!!!! AMÉM!!!

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  3. Querer procurar o Jesus histórico submetendo cada relato à nossa ciência, que trata apenas do natural, só poderá nos conduzir a uma sombra de Jesus...Ninguém é obrigado a crer, mas quem crê em Jesus crê que ele tenha operado fora do mero campo natural, sua promessa de ressurreição e vida eterna extrapola os limites da racionalidade, mas nem por isso ela pode ser declarada inexistente ou simples fantasia....Tal possibilidade parece impossível à luz da razão, mas quem pode afirmar que a realidade se limita ao que pode ser concebido pela racionalidade?

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  4. Uepa!
    Mas o buda nao veio para fazer milagre e curar pessoas, ele ensina o caminho, a solução vai depender da pessoa

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    1. Sem contar que existe vários budismos, assim como evangélicos, católicos e Jeová que interpreta a bíblia de varias formas

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