sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"Como você pode ter tanta certeza?"

O tribunal está em sessão. Quem está no banco dos réus é Mário, a acusação é assassinato. Várias evidências são apresentadas pela promotoria. Aparentemente, houve uma briga e o assassino deixou na cena do crime algumas gotas de sangue. Um teste de DNA mostra que o sangue pertence ao réu. Havia marcas de pegadas cena do crime que são compatíveis com um par de sapatos sujos de terra - a mesma terra que é lá encontrada - que estavam na casa de Mário. Em sua posse também foram encontradas roupas manchadas com o sangue da vítima. Mário tinha motivos de sobra para querer a vítima a sete palmos abaixo da terra.

Não foram necessários mais do que 15 minutos de discussão para que o juri chegasse à sua decisão: o réu é culpado de todas as acusações. Joana, a namorada de Mário, é claro, não gosta disso. Ela reclama que o julgamento foi injusto, como pode o juri ter tanta certeza nessa decisão? E se houve uma grande conspiração por parte da polícia para incriminar o réu? Oras, o teste de DNA tem uma chance em um trilhão de acusar um falso positivo, e se o réu for simplesmente muito, muito, muito, muito azarado? O crime foi realizado sem que houvesse uma só testemunha, como o juri pode acreditar que Mário estava lá se ninguém viu?

Como ousam eles considerar a teoria de que Mário é culpado como a única "verdade absoluta"?

Pensemos por um segundo. Joana teria alguma razão? Será que existe alguma possibilidade do réu ser, afinal de contas, inocente? Sim, é claro que existe. Agora, é razoável supor que o réu é inocente? Quem é que, diante de tantas evidências, não julgaria o réu como culpado sem nem sequer piscar para pensar? De que vale a pena agarrar-se com tanto fervor numa possibilidade tão remota de ter cometido um erro? Quem é que acredita que é injusto declarar que Mário é culpado em tais circunstâncias?

Joana.

Oras, Joana pode dar tantos murros nessa faca quanto ela quiser, ela pode gritar e espernear à vontade, mas Mário vai pra cadeia e ninguém vai perder o sono por isso.

"Olhe, eu estou disposta a admitir que o seu ponto de vista é possível, mas como você pode dizer que o meu ponto de vista é impossível?" É o que dizem as Joanas por aí, como se não soubessem como defender o seu próprio ponto de vista com argumentos ou evidências e procurassem chegar a um acordo, pedir uma trégua, numa tentativa de não se sentirem prejudicadas. Ou seja, pedem água. Mas em que circunstâncias alguém pede água senão numa briga? Por que tratar uma discussão como se fosse uma disputa?

Oras, numa disputa, um ganha somente às custas da derrota do outro, enquanto que, numa discussão, quem tem o maior lucro não é aquele que defende melhor o seu ponto de vista, pelo contrário, é aquele que aprende mais. Além do mais, se o propósito de uma discussão acerca de um assunto polêmico for chegar à conclusão que os dois lados deste assunto são igualmente possíveis, então, pra começo de conversa, para quê discutir? Não seria mais fácil os indivíduos envolvidos dizerem "todas as possibilidades são igualmente possíveis" e encerrar a discussão?

É claro que discussões não podem sempre ser vistas desta forma, dificilmente a questão é sim ou não, e não é apenas a questão da existência de meios termos, mas de problemas laterais correlacionados ou que influenciam alguma decisão numa situação prática. Há de se tomar cuidado para não prender-se no extremo de uma questão ou de negar-se a ouvir uma opinião contrária.

Por que Joana acredita tanto na inocência do seu amado? Simples: porque ela quer acreditar. É a Primeira Regra do Mago:

As pessoas são estúpidas; dada motivação o suficiente, quase todo mundo acreditará em quase tudo. Porque as pessoas são estúpidas, elas acreditarão numa mentira porque elas querem acreditar que ela é verdade, ou porque elas têm medo de que ela possa ser verdade.

É extremamente importante notar que isso vale para ambos os lados. Muitas vezes, alguém defende um ponto de vista extremo, não porque tem evidências, mas porque quer acreditar naquele extremo, enquanto que aquele que argumenta pelo meio-termo esta apenas tentando ser sensato. Deve-se, portanto, saber distinguir entre uma situação e outra.

Não importa a situação, qualquer ponto de vista, seja extremo, meio-extremo ou meio-termo, é defendido por argumentos e evidências, não por negociação. Dizer que um fato bem estabelecido é falso pela vontade de acreditar na sua falsidade é dar murro em ponta de faca. Tentar negociar e suavizar o ponto de vista alheio sem argumentação ou evidência é acariciar a faca: os cortes são inevitáveis e a faca não perderá o seu fio.

2 comentários:

  1. Graves acusações envolvendo seu nome e meu insalubre blog exigem sua pronta atenção e, é claro, respostas convincentes.
    Veja aqui: http://prcequinel.blogspot.com/2012/01/gustavo-milare-gustavo-milare-o-milagre.html

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  2. Gente, quanta besteira e falta de respeito em um único lugar!
    Misericórdia!!!
    Exatamente por isso o mundo está desta forma. Lamentável!!!

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