quinta-feira, 28 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 6: Às avessas


Acreditava que ainda restava-me uma forma de evitar a condenação eterna: a vocação. As filosofias do antigo coordenador ainda dominavam-me a mente: ouvira dele que responder ao chamado divino, a vocação, poderia levar-me ao paraíso, se feito com dedicação. Isso foi o que afastou-me da minha fobia irracional, não tinha como errar, gostava de estudar, aprender, descobrir. Não iria me preocupar em tornar-me um santo ou uma pessoa profundamente religiosa: bastava-me a Física ou, mudaria de opção mais tarde, a Matemática.

Ao entrar na universidade, para minha surpresa, encontraria colegas ateus, agnósticos, vários deles. Não me assustei, afinal de contas, já sabia que havia poucos religiosos doutores, mas estes colegas eram um incômodo. Tive em várias discussões a respeito de religião com meus dois amigos Jonas e Luiz Fernando. É bem difícil discutir com um religioso, quanto mais com um fanático, porque qualquer argumento é levado para o lado pessoal. Se alguém me dizia que eu acreditava em algo absurdo, ofender-me-ia. Qualquer argumento que atacava a minha fé faria com que o sangue subisse à minha cabeça, eu não tinha a humildade de admitir que não sabia a resposta, quanto mais que eu concordava com o ponto apresentado pela contraparte ou, pior ainda, que eu acreditava estar errado. Ah, não, isso eu não podia dizer, não poderia demonstrar fraqueza, falta de fé, mas eu percebia que eu não me saía bem nas discussões, não tinha argumentos, não conseguia encontrar a falha no que me apresentavam.

Certa vez, precisava de um marcador de página, peguei a minha bíblia, guardava vários deles no verso da capa. Eles tinham temática religiosa, hesitei, mas decidi que não poderia ter vergonha da minha religiosidade. Além do mais, ninguém veria, veria?
Deixe-me ver? – disse a voz feminina suave ao meu lado.
Deixei, sem jeito, e comecei a tentar explicar que eu peguei aquele marcador porque eu não tinha outro e... Mas o nervosismo não deixava as palavras saírem da minha boca.
Não se preocupe, eu não falei nada.
Vergonha. Até então eu pensava que tinha orgulho de ser um “católico fervoroso”, como eu costumava me intitular. Percebi que estava errado e...

Não, não, caro leitor, você está imaginando coisas... Certo, certo, você não está imaginando coisas. Assim como muitas histórias que se prezem, e espero que esta seja uma delas, nesta também existe um romance em potencial.

Hora da bola fora. Estávamos na fila para a refeição, eu, ela e mais uma amiga, e elas começaram a cochichar demais para o meu gosto. De vez em quando, ela olharia para mim para certificar-se que eu não estava ouvindo. Isso só me deixava ainda mais nervoso. Uma puxou a outra para o banheiro feminino, ao que ela olhou para mim como quem dizendo “Já voltamos...”

Eu esperei, elas voltaram.
Não precisava ter esperado.
Bem, mas eu esperei.
Obrigada.
O agradecimento mais suave que eu já tinha ouvido na vida.

Fiquei calado, eu estava trêmulo, esforçava-me para ela não perceber. Servimo-nos no balcão e sentamos. A amiga era magra – e comia pouco, eu não me conformava muito com isso – enquanto ela, aquela que me deixava nervoso pela simples presença dela, era... gordinha. Ela então virou-se à amiga e comentou:
Você só vai comer isso?
Sim.
É por isso que ela é magra.


A amiga fez um olhar de “Não, ele não disse isso.” Só notei que o que eu falara tinha sido mal interpretado quando vi que ela havia ficado zangada. Não tentei consertar, ah, já era. Abaixei a cabeça e continuei a comer.

Mais tarde no mesmo dia, eu a encontraria, não estava irritada, pelo contrário, estava alegre. Convidou-me para estudar, vamos, vamos estudar. Ensaiava como pediria desculpas a ela – sim, eu planejava abrir o jogo – e diria, é que eu estava nervoso porque...
Olhe quem está aqui, vamos sentar junto com elas...

Droga!

Hora da bola na trave. O professor ainda não tinha chegado, ela comia uma maçã, ofereceu-me um pedaço, aceitei, sem pensar, estava concentrado, pensativo. Disse que queria contá-la uma coisa, demorei um bocado para abrir a boca, olhava para baixo, tomava coragem, nossa, dizia ela, deve ser uma coisa...
Eu gosto de você.
Choque. Alguns segundos.
Eu não imaginava.
Como? Não imaginava? Não me conformava com isso.

Hora da bola dentro.


Não teve bola dentro, este tinha sido meu último chute a gol. Aprendi não sei onde que a gente não precisava se preocupar, Deus preparava uma pessoa na vida da gente... O que eu posso fazer, me contaram aquilo e eu realmente acreditei, ao contrário de tantos que juram acreditar nisso, mas não agem de acordo. Desculpe-me a imaturidade, caro leitor, como eu disse, saí da Laetare ainda com 14 anos. E não me diga que o meu problema é que eu levei ao pé da letra, quanta gente acredita em Adão e Eva e na arca de Noé e ainda não sofre este tipo de problema, o ponto da questão é que eu levei a termo o que disseram-me. Não podia me precipitar, não podia demonstrar falta de fé, eu acreditava que já tinha feito a minha parte e que, agora, estava nas mãos de Deus.

Era prova, seria a última aula que eu teria junto com ela. Terminei cedo. Do lado de fora, pensei em ficar, esperar ela sair e conversar com ela, esperei dois segundos, não, é tarde demais para isso. Fui embora. Se eu tivesse uma máquina do tempo, essa seria a hora em que eu a aterrissaria, dar-me-ia um tapa e apontaria o dedo para o banco, calado, como quem diz: volte lá e sente-se. Entraria novamente na máquina e voltaria para meu tempo, assim mesmo, sem soltar uma palavra, sem dar satisfação alguma.

Meus amigos ateus eram gente fina, pessoas boas, mas eles não tinham o conhecimento que eu tinha de religião, nunca tinham sido tão religiosos quanto eu antes fora. Mas se eu abandonasse o catolicismo como eles o fizeram, tinha certeza, o demônio pouco a pouco tomaria conta do meu coração, eu me afastaria cada vez mais de Deus e, consequentemente, tornar-me-ia alguém sem a menor consideração com o próximo, orgulhoso, talvez até mergulharia no mundo das drogas, e talvez, num instante de fraqueza e raiva, poderia chegar a matar. Eu já era orgulhoso, sabia disso, sempre soube, mas não conseguia deixar de sê-lo, também sabia que discriminava pessoas que não eram tão religiosas quanto eu, mas meus esforços para mudar isso pareciam ser em vão, não conseguia deixar de julgar e não entendia de fato como se fazia para amar os inimigos. Achava que, para lidar com estes problemas, eu deveria tornar-me mais fervoroso.

Uma vez, Jonas me perguntou o que eu achava a respeito da eutanásia, ele contou uma história de um conhecido dele que sentia tanta dor que gritava “Me matem! Me matem!”, eu disse, sem muita vontade, desconfortável que a Igreja Católica dizia que eutanásia era errado. Então ele perguntou “Mas isso é uma opinião sua ou da Igreja?” Fiquei sem jeito, percebi que ele tinha razão, tinha sido uma resposta automática, sem propósito. Eu já não tinha mais tanta certeza de que a Igreja era dona da verdade universal.

Com o tempo, minha frustração foi fazendo com que eu deixasse o catolicismo cada vez mais de lado na minha vida. Cada vez menos fervoroso, é claro, também deixei de ser tão cabeça dura nas discussões com meus rivais, aprendi a dizer “é, você tem razão” e “não, eu não sei” com muito mais facilidade. Meu orgulho foi murchando, cada vez menos eu julgava previamente as pessoas, ou seja, fui perdendo o preconceito. Já não andava de nariz empinado, já não me exibia por aí dizendo que eu era um católico fervoroso, não sentia mais raiva nas discussões...

E assim, sem mais nem menos, deixei de ter preconceito com pessoas não religiosas e aprendi como se ama os inimigos.

Estava cansado de frequentar a missa toda semana, não via propósito algum nisso mais. Perguntei-me então por que eu ainda ia a missa. Não consegui obter resposta alguma, ia apenas pelo mero costume. Indaguei-me o que eu ganhava indo à missa e novamente a resposta era um vazio. Já não conseguia acreditar que ir à missa era realmente a vontade de Deus sem que eu visse propósito algum nela. Deixei de cumprir os três primeiros mandamentos e declarei-me agnóstico. Não acreditava mais no cristianismo e, já havia décadas, não acreditava mais na bíblia como fonte da verdade, seja com ou sem inspiração. Não tinha mais nenhuma... fé.

Tornei-me um revoltado, sentia-me como se alguém tivesse me passado a perna. O tempo fez com que a raiva passasse, e, anos depois que eu havia me declarado agnóstico, resolvi que tentaria entender a fundo os motivos que me levaram a esta decisão. Sabia que estava relacionado à raiva, mas o que me deixara irritado, afinal? Às vezes é bem complicado entender seus próprios sentimentos.

Num belo dia, assim, de repente, tive uma epifania, comecei a entender tudo de forma clara. Eu ficara confuso porque juraram-me de pé junto que ia tornar-me ruim conforme eu fosse deixando a religião de lado, mas isso não aconteceu, o que aconteceu foi o oposto. Antes de eu me tornar agnóstico e começar a perceber que eu estava me tornando uma pessoa melhor ao deixar a religião, pensava: Não pode ser tão fácil assim, não pode ser tão óbvio. Não conseguia conceber como que eu me tornava uma pessoa melhor me tornando... menos religioso! Não fazia nenhum sentido, haveriam me ensinado tudo errado, tudo ao contrário? Não, deve ter algum truque, eu vou me tornar um monstro daqui a pouco!

É por isso que dava passos lentos, tinha certeza que o demônio ia me dominar de surpresa. Mas não aconteceu nada disso, nem de longe. Fui ficando cada vez mais confuso e desta confusão originou-se a minha raiva.

Quando tive a epifania, os pensamentos choviam na minha cabeça, não conseguia parar de pensar e minha cabeça já doía. A chuva de ideias durou horas. Percebi que, de tudo o que me ensinaram dentro da igreja, nada, absolutamente nada havia se concretizado conforme as previsões que eram feitas. Não é à toa que eu ficara confuso.

Eu costumava ouvir:
Quanto mais católico você for, mais aprenderá amar os inimigos, a não julgar, a não ser preconceituoso.
Quanto mais religioso você for, mais bondoso você será.
Cuidado com a ausência de religião, você vai se tornar uma pessoa cada vez pior sem Deus!
Confie em Deus, tenha fé, ele lhe ajudará no caminho e lhe dará tudo o que você precisa.
No cristianismo você aprenderá a dar mais valor à misericórdia que ao sacrifício.
Tendo fé, você não sentirá medo do inferno.
Você precisa ter fé para entender a verdade.
Deus lhe ajudará a não fazer besteiras na vida! – Ai, essa até doeu!

Tudo às avessas!

Eu ouvia tantas afirmações mas me esquecia de verificar se elas eram realmente verdadeiras. Era como se o catolicismo tivera sido inventado com um único propósito: o de não funcionar, o de ser uma mentira completa, de me fazer ficar rodando em círculos sem chegar em lugar algum. Diziam: cace o pato, cace o pato, procure que ele está por aí... e não tinha pato! Eu perdia tanto tempo concentrando-me no sacrifício, que, é óbvio, esquecia-me da misericórdia! Eu me esforçava tanto para ter fé que isso me deixou cego com respeito ao que realmente importava. Como poderia deixar o orgulho de lado se eu julgava ter recebido a... “verdade” que poucos conheciam? Que o próprio Deus me escolhera para recebê-la ao invés dos outros?

O Deus do catolicismo, único e verdadeiro, fora rebaixado ao posto de “o deus do catolicismo”, apenas mais um dentre muitos. Até mesmo este deus denota muitos, tem muitas versões diferentes espalhadas pelo mundo afora, não é único e muito menos pode ser o verdadeiro. Se Deus está por aí em algum lugar, eu pensava, não teve nada a ver com a História.

Dei-me conta que o catolicismo é uma religião extremamente ritualista. Jesus fora prático, direto, desprezava os rituais, não reconhecia a autoridade dos líderes religiosos, não dava atenção aos fanáticos religiosos, não ficava demonstrando extrema religiosidade rezando em público... E a maldita Igreja Católica, fazendo tudo, tudo ao contrário: tudo às avessas! (Assim como eu fazia às avessas o que o Silvanei ordenava antigamente ;) E assim ela deixa todo mundo feito morcego, de cabeça para baixo. E falaram que era o certo... e eu caí feito um patinho!
Olhei no espelho, havia uma bola redonda e vermelha bem no meio da minha cara. Devia ser algum tipo de brincadeira de mal gosto, fiquei pasmo, não sabia como eu havia caído nessa. O inferno era a materialização do fracasso, do medo de tornar-me mau e sem consideração pelo próximo, era o abismo que me impedia de amar os inimigos e que me mantinha perto do sacrifício e longe da misericórdia. O inferno era confusão, falta de controle sobre minhas próprias decisões, sobre a minha vida, aquilo que me impedia de ser eu mesmo e de agir de acordo com minha própria natureza. O inferno era a religião!


Suspirei. Balançava a cabeça de um lado a outro enquanto tirava o nariz vermelho e a peruca festiva. Joguei-os no lixo, abanei-lhes a mão, sorri. Conhecereis a verdade, dizia Jesus, e a verdade vos libertará. A minha dignidade é minha, pensei, o meu corpo é meu, a minha mente é minha: igreja, não és mais a minha dona e não sou mais teu objeto.

< Capítulo 5  Índice 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 5: Dúvidas

O medo do fracasso que significava deixar a Comunidade Laetare e, por consequência, acabar no inferno não era a única coisa que perturbava a minha cabeça o tempo todo. Antes e também depois da minha longa e dolorosa estadia na Laetare, tinha várias dúvidas que viriam à tona cada vez que eu pensava em religião.

Tinha 8 ou 9 anos de idade, acredito, quando assisti o filme Os Dez Mandamentos pela primeira vez. Nossa, adorei, assisti uma, duas, três vezes, Moisés, uma pessoa que era escolhida desde que nasceu, especial, fazia mágicas impressionantes, não como os truques dos mágicos, mas mágica de verdade, com a marca registrada divina. Incrível! Ele ergueu as mãos, soltou um grito, Deus dividiu as águas, nossa, que legal!, e, quando o exército egípcio estava passando, ele, ele... ele os matou...

Foi aí que caiu a ficha: Deus era assassino. Eu não tinha coragem de revidar e, Jesus, ele também não gostava. Era o que me diziam no catecismo: ele oferecia a outra face, embora eu não entendesse muito bem o que isso queria dizer, já que a gente só tem uma face. Mas Deus não só revidava como matava milhares de pessoas. E, é claro, as mortes eram desnecessárias, havia muitas outras formas de resolver o problema.

Se ele conseguia falar com Moisés, questionava, por que ele não falou com o faraó? E por que que o faraó, mesmo vendo fenômenos completamente miraculosos que fariam qualquer pessoa de hoje em dia tremer, quanto mais alguém daquela época, não ouviu Moisés? Por que Deus, que é tão poderoso, não fizera alguma coisa que convencesse o grande líder do Egito a deixar os hebreus irem livremente? Essa dúvida assombrar-me-ia ainda mais quando eu encontrasse, com a ajuda dos meus pais, a passagem onde diz que Deus endureceu o coração do faraó para que ele não se arrependesse.

Lembrava-me dos gritos de quando Deus enviou seu anjo para matar os primogênitos. Morreram as crianças, aos gritos. Aquele anjo sombrio, aquela fumaça verde esquisita. Anjo? Achei que anjos fossem bonzinhos! Aquilo também fez-me pensar no inferno. Como Deus seria capaz de mandar alguém ruim para o inferno? Jesus dizia para perdoar, ensinaram-me que deve-se perdoar, por que Deus não era capaz de fazer o mesmo? E jogava no fogo ainda por cima, nossa, isso é mau!

Minha mãe não fora capaz de tirar a minha dúvida, minha primeira grande dúvida: como Deus, sendo bom, seria capaz de criar um inferno? Esta sombra acompanhar-me-ia por toda a minha vida religiosa. Por algum tempo, deixei de acreditar no inferno e, ao contrário do que muitos pensariam, não me tornei mau por isso, aliás, ainda era muito religioso.

Eu tinha entre 11 e 13 anos e chegou um padre novo na cidade, o padre Luiz, jovem e cheio de disposição. Iniciou um curso bíblico, teologia. Meus pais frequentaram-no por um ano e eu ia com eles. Não entendam a bíblia ao pé da letra, dizia o padre, as coisas não aconteceram exatamente assim. Dilúvio, impossível, Adão e Eva, não aconteceu exatamente assim, não, isso são formas que o povo antigo tinha para retratar suas próprias histórias. Os números eram simbólicos, ninguém vivia milhares de anos, nem todos os milagres de Jesus foram necessariamente milagres, não levem ao pé da letra...

Aquela ideia explodia dentro da minha cabeça, agora sim a história de Moisés fazia sentido: simplesmente não acontecera daquela forma. Eu lia as primeiras páginas, a introdução da minha bíblia Ave Maria: este livro não tem valor histórico ou científico, apenas valor de fé. Para então encontrar o verdadeiro significado das escrituras, era necessário estudo, preparação e fé, só as pessoas realmente qualificadas poderiam entendê-las.

Pouco tempo depois, aprendi sobre o início do universo e sobre a teoria da evolução das espécies e não tive barreira alguma em aceitá-las. Para mim, era muito mais empolgante e fazia muito mais sentido que aquela velha história de criação bíblica.

Fiquei surpreso e triste um ano depois quando meus pais disseram que não iriam mais. E eu, apesar de insistir e teimar, também não iria. Este curso fora, para mim, a única coisa associada à religião que realmente me empolgara e agora chegara ao seu inevitável fim. O acampamento e o retiro de crisma que ainda viriam seriam empolgantes mas não me dariam a mesma sensação de curiosidade e descoberta.

Comecei a desacreditar em várias coisas: anjos, demônios, diabo, inferno, tudo parecia mera invenção dos escritores da bíblia, histórias bobas, sem motivo de ser e sem sentido. Anjos seriam no máximo uma personificação da voz divina falando à sua mente, os demônios, apenas tentações, e o inferno, nada mais que metáfora para o sentimento de culpa. Nem em milagre de santo eu botava muita fé. Infelizmente, a minha liberdade em acreditar apenas no que fazia sentido para mim não duraria para sempre.

O que eu aprendera no curso bíblico entraria em contradição, mais tarde, com os dizeres do livro do padre Jonas Abib, distribuído entre os laetares, que dizia que todos podem e devem ler a bíblia, desde que siga cuidadosamente uma determinada sequência de passos. Detestava a ideia de voltar ao antigo testamento e tentar tirar uma mensagem escondida do meio daquela brutalidade toda, mas acreditava quando diziam que eu ia gostar de fazer o diário uma vez que eu me acostumasse. Via membros da Laetare lendo o que estava escrito e levando ao pé da letra, acreditava ser um absurdo.

Senti-me forçado a voltar a acreditar em tudo o que eu não acreditava. Mas seria possível acreditar em algo que não faz sentido para você? Não, não seria, o que é possível e eu fiz, entretanto, foi firmar o compromisso de fingir e confirmar para quem quer que me perguntasse que isso tudo era real: anjos, demônios, inferno e tudo mais. O engraçado é que eu acabava tendo a ilusão de que eu acreditava, mas tinha um desconforto toda vez que alguém falava em anjo. Quando alguém dizia algo do tipo:
Eu fiquei me perguntando: como pode Deus ter criado o inferno? Mas eu pensei bem e...
Então eu erguia a cabeça e arregalava os olhos, ansioso pela resposta. Decepção: mais uma explicação que simplesmente não respondia a questão, apenas enrolava.

De vez em quando, durante o abastecimento, um ou outro falava “Deus está me dizendo isto, isto e isto.” Certa vez estava eu lá tendo uma “experiência religiosa”, em estado de transe. Para quem já orou, meditou, concentrou-se num ideal para a sua vida ou mesmo ouviu aquela música inspiradora e sentiu aquela sensação forte deve saber do que eu estou falando. Sim, eu já tive “experiências religiosas” em cada uma destas situações, só nunca usei algum tipo de droga para ver se o efeito é o mesmo. Não estou sendo irônico ou provocativo, apenas honesto.

Neste estado a gente tende a ter uma imaginação desconexa, assim como quando a gente está sonhando. Imaginei uma árvore grande e seca, onde havia um ninho de pássaros, e pensei: árvore seca pega fogo muito fácil. Então automaticamente imaginei alguém botando fogo na árvore, coitado dos pássaros. Eu acreditava, ou talvez seja mais preciso dizer: eu queria que aquela fosse uma mensagem divina, mas daquele jeito não fazia sentido. Poderia eu modificar a história de forma a fazer sentido? A versão final do conto é que haviam dois pássaros, duas árvores e a árvore feia, que agora era grande, foi a que não pegou fogo.

Aproveitei um momento de silêncio para começar a falar: “Deus me contou uma história...” Caro leitor, não se exaspere, eu tinha a ilusão que fora Deus quem havia me revelado aquela história, ainda que tenha sido eu que inventei e a distorci completamente da versão original, não por maldade, mas numa simples tentativa de tentar entendê-la. A interpretação da “parábola” era que devíamos confiar no que é grande, não no que é belo.

Eu não fui o único que acreditou que aquilo fora uma mensagem divina. De tempos em tempos, recordar-me-ia daquela anedota e sentiria desconforto com a dúvida que aquilo não era uma mensagem divina, embora eu confiasse que ela era prova substancial da existência divina, ou de que continuar na Comunidade era a coisa certa a fazer.

Apesar de lá falar-se muito a respeito de enganar a si mesmo, não me dava conta.

Eu sabia que a Comunidade Laetare era criticada por diversas pessoas da cidade. Lá dentro falava-se muito em tribulação, e eu confiava, sem motivo, nessa desculpa. Porém, a princípio, pouco depois de ter ouvido falar de tais críticas, desejei saber se elas tinham algum fundamento. Não, caro leitor, eu não era muito esperto: ao invés de consultar as pessoas que criticavam para ver o que elas achavam e verificar se as críticas delas faziam sentido, resolvi consultar... a bíblia!

Pedi para Deus que me mostrasse a verdade a respeito daquele grupo que eu pretendia continuar participando e abri a bíblia uma vez numa passagem aleatória. Era realmente aleatória, não tinha relação nenhuma. Rezei novamente por uma intervenção divina, abri de novo. De novo, não respondia nada. Repeti o processo pela terceira, pela quarta, pela quinta... Olhei em uma das páginas abertas, não tinha nada relacionado, mas, na outra página... Nossa, caiu bem na parte que Jesus comparava fariseus e escribas a lobos disfarçados de cordeiros! Isso só pode ser uma mensagem divina dizendo para eu me afastar daquela comunidade maligna! Não é possível que seja mera coincidência!

Chamei minha mãe. Contei o que eu descobri, mas escondi debaixo do travesseiro o fato que eu havia abrido não sei quantas vezes a bíblia.
Filho, não é assim que se lê a bíblia, tem todo um processo, blá blá blá. – É, eu já “sabia” disso. – O que você deve se perguntar é: você quer continuar indo lá ou não?
Querer é emocional, querer eu queria, mas eu tinha dúvida, e dúvida é racional. Como minha mãe apelou para o lado emocional, a vontade venceu a razão.

Então eu agarrei esta dúvida firmemente pelo pescoço com um braço, enquanto com o outro destrancava um baú grande e velho. Abri a tampa, e vi várias outras dúvidas lá dentro, gritando: deixe-me sair, deixe-me sair! Não! Joguei com força aquela que eu segurava para dentro do baú, fechei-o e tranquei-o a dez voltas de chave. Chutei e o baú da ignorância deu um pequeno pulo.
Dúvida, não, não tenho dúvida nenhuma, minha fé é inabalável!

Alguns dos servos, eu viria a saber, ao sair de lá, fariam críticas por vezes severas à Comunidade. Nunca soube, a não ser anos mais tarde, que algumas delas eram pessoais, dirigidas ao SIlvanei. É claro que nunca nos contavam a respeito do que as pessoas que nos abandonavam haviam dito ou por qual motivo elas se foram. Duvido que alguma delas tenha sido levada a sério ou mesmo que alguém refletiu a respeito delas, embora seja possível que alguma tenha sido mencionada numa das reuniões que Silvanei realizava com alguns que estavam um pouco abaixo dele na hierarquia. Lá, críticas severas eram consideradas testes de fé, e o coordenador era orgulhoso demais para levar qualquer opinião contrária a sério.

Porque a opinião contrária, é claro, é sempre um teste divino para verificar se você tem fé o bastante. Não, nunca é o próprio Deus enviando uma pessoa física para dizer-lhe que você está fazendo algo errado. Não pode ser, como assim Deus virar-se contra Mim, como poderia Eu estar errado? Se ele estivesse querendo dizer que eu estou no caminho errado, Ele diria a Mim, pessoalmente, assim como ele contou aquela história de pássaros e árvores àquele menino perdido que anda por aqui! Não, não posso estar errado, eu estou agindo exatamente conforme o que eu conduzo, quero dizer, leio na bíblia!

Enquanto eu a frequentava, não houve uma atividade sequer da Comunidade com algum propósito verdadeiramente altruísta. Aulas de violão, dança, canto, oficinas de diversos tipos: apenas para servos e noviços. A função de cada evento era sempre o doutrinamento de pessoas, porque pessoas que são católicas que simplesmente vão à igreja aos domingos não vão para o céu, são pessoas más, temos que salvá-las do fogo do inferno! E pior, quantos jovens hoje em dia que nem sequer vão à igreja? Pois, claro, se hoje não vão à igreja, amanhã estarão roubando e matando e usando drogas e se prostituindo! Quem é que já viu uma pessoa que não vai à igreja e que não seja um criminoso da pior espécie? E é claro que não adianta ir às escolas e instruir as crianças a respeito das drogas ou fazer trabalhos sociais que ocupem-nas, tornem-nas mais felizes e consequentemente menos propensas a aventurar-se no mundo das drogas, não, não, nada disso, devemos tornar estes jovens em religiosos fanáticos! Porque o mundo não tem religiosos fanáticos o bastante!

< Capítulo 4  Índice  Capítulo 6 >

terça-feira, 26 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 4: Os espinhos

A pressão dentro da panela laetariana, pouco a pouco, foi fazendo com que as pipocas estourassem para fora. Dos 40 ou 50 de quando eu entrei sobraram cerca de 15 quase quatro anos depois, que foi quando eu disse para Silvanei que estava saindo. Hoje sobraram uns cinco. Muitos começavam o seminário, mas poucos concluíam a escola de servos. Ficava triste com isso, os amigos que eu mais presava iam embora. Os membros iam saindo um a um, a panela foi ficando magra, vazia.

Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta.
Mateus 13, 3b-8

Expliquemos o processo da minha partida.

Cada um de nós, noviços, tinha um monitor cuja função era acompanhar e ajudar no desenvolvimento espiritual. O meu primeiro monitor era gente fina, não se preocupava muito e também não dava muita atenção. O que era ótimo para eu que detestava fazer o diário. Depois ele foi embora, pipocou para fora da Laetare, e Silvanei escolheu outro monitor para mim. Conseguia dar um jeito dele não saber que o meu diário espiritual não era diário: não mostrava tudo, dizia que o resto estava em outro caderno, enfim.

Mas minha irmã descobriu. Resultado: o Silvanei instaurou novas regras: os monitores iriam verificar os diários semanalmente, aos domingos. Levei uma bronca, não do Silvanei, mas do meu monitor, ao ver o meu diário. Eu não me defendi, exceto por dizer que não fazia tanto tempo assim (apenas alguns meses) que o meu diário estava completamente longe de ser diário. E que eu havia jogado o antigo diário fora.

É, não me sinto bem por ter mentido, mas entenda, caro leitor, eu não gostava desse ritual. As cartas no novo testamento eram entediantes, repetitivas, e não me ajudavam a entender as ideias da comunidade. Aliás, não pareciam ensinar-me absolutamente nada. Onde estava o Espírito Santo nessas horas que eu precisava dele? Por que ele não me ajudava a enxergar? As leituras iam para o lado que eu queria levá-las, não eram elas que me conduziam, era eu quem as conduzia. Os outros também pareciam fazer o mesmo, pelas coisas que eu ouvia lá dentro, mas não me sentia confortável com isso, para mim alguma coisa estava errada. Ou melhor, tudo estava errado.

Passar-se-iam anos, eu leria o novo testamento mais de uma vez, uma boa parte do antigo e não encontraria nada que tivesse uma clara relação com as ideias da Comunidade ou que me ajudasse a entender o significado delas. E tanto tempo eu permanecia procurando o que não estava escrito que não dava atenção ao que estava.

No novo testamento, só me agradavam os evangelhos, menos o de João. Estranhava-me o quanto os outros gostavam deste, talvez por causa da narração fantástica, espetaculosa, cheia de milagres, Jesus falando o tempo todo que era filho, ou melhor, que era o próprio Deus. Isso não me atraía. O que matou a minha profunda admiração pela vida de Cristo, para mim, foi que ele armou um chicote com um pedaço de corda e expulsou violentamente os mercadores do templo. Como assim, um Jesus violento? Como podia ser?

Já o antigo testamento eu desprezava completamente. Se o chicote já me era demasiadamente violento... Sem falar no tédio, todos aqueles nomes, números, fatos, acontecimentos desinteressantes... Eu acreditava que eu precisaria receber uma inspiração do Espírito Santo para entender a verdadeira interpretação do texto, pois este havia sido escrito propositadamente para que quem não tivesse fé o bastante não pudesse extrair a verdade de lá. Mas nunca obtive tal inspiração. Pedia, orava, suplicava por ela.

Não, não, nada de inspiração. Lá sempre se dizia que, a princípio, o diário espiritual pareceria sem sentido, mas que depois a situação mudava.

Nunca me ocorreu: a bíblia é isso mesmo, se você concorda, concorda, se você discorda, então discorda, nada mais que isso.

Quando eu lia os ensinamentos de Jesus, era-me um espanto: oferecer a outra face? Como assim? Admirava as ideias um tanto excêntricas, alheias até mesmo ao que se conhece por cristianismo hoje em dia. Nunca senti isso em qualquer outra parte da bíblia. Aliás, pelo contrário: minha impressão é que era impossível que o antigo testamento fosse realmente a palavra de Deus.

Enfim, mas depois da bronca que eu levei do meu monitor, passei a fazer o diário direitinho e... Não, desculpe-me outra vez, e o meu ex-monitor que me desculpe novamente, mas acho que, desde que eu entrei, não houve um espaço maior que duas semanas, ou talvez apenas uma, em que eu havia feito o diário todos os dias, sem falha.

Eis o que acontecia: a princípio, fazia o diário da segunda, talvez o da terça, depois fazia vários na sexta, no sábado, às vezes também no domingo, quando apresentava o diário ao meu monitor, sentindo remorso, mas com o firme propósito de fazer tudo direitinho na semana seguinte. Com o passar do tempo, fui fazendo cada vez menos, até que chegou a um ponto onde eu fazia todos os diários, da semana toda, no sábado e no domingo, ou só no domingo, espremido num horário depois do almoço até antes das quatro, pois, de manhã, havia o grupo de oração.

Eu sei, não dá para entender o que raios eu estava tentando conseguir lá dentro. Mas eu estava com o firme propósito de provar para mim mesmo que eu não era um fracasso completo. Não podia levar essa para o meu currículo, tinha que dar certo, de um jeito ou de outro, eu tinha que aprender, eu tinha que conseguir eventualmente. Apesar das minhas bolas fora e do quanto eu era visto lá dentro como “O irresponsável” (pelo menos esta era a minha impressão), sonhava com o dia em que aquele velho tabu se quebraria.

O coordenador da Laetare decidiu dar aulas de percussão. Não, não farei aulas de percussão. Já mal tenho tempo de fazer os diários, hum, o semanário no domingo, ainda vou me ocupar com mais uma tarefa? Não, não, não vou fazer isso, não vou fazer isso, não vou...
Silvanei, quero me inscrever para as aulas de percussão.

Não!!!

Droga!

Sim, eu fiz isso. O semanário passou a ser feito no domingo de manhã, antes do grupo de oração, e mais alguns diários depois do almoço. Se me lembro bem, certa vez, fiz apenas dois diários de manhã, faltavam mais uns quatro ou cinco, mas fiz a proeza de conseguir terminar tudo depois do almoço e ainda chegar bem a tempo para a aula de percussão.

Por que eu me inscrevi na percussão? Acredito que eu sabia, de certa forma, que o que eu precisava fazer para me tornar um servo era impressionar o Silvanei. Não tinha a ver com o quão próximo de Deus eu estava ou não, como ele afirmava, a única coisa que contava era como o Mestre me veria.

Não, não conseguia impressioná-lo de maneira alguma.

Certa vez, estava eu fazendo o semanário no sábado, antes do abastecimento. Pensei que dava tempo de fazer o diário de mais um dia e chegar a tempo para o encontro semanal. Não dava. Vi que estava atrasado, peguei a minha bicicleta e voei. Já fazia tempos que havia um novo lar Laetare, um prédio onde funcionara uma fábrica de pneus. As portas do prédio estavam fechadas. Bem, agora eu não vou gritar para abrirem a porta para mim, seria terrível. O que farei? Como poderei me desculpar por ter faltado? Conclui que não queria levar mais um fora, ser taxado mais uma vez como aquele que não tem disciplina. Iria eu desistir de tudo e abandonar a Comunidade? Não, vou pensar em alguma alternativa.


Não encontrei alternativa. Poderia inventar uma mentira, mas conclui que não seria certo. Desisti. É, eu sei, caro leitor, o que não me faltavam eram motivos para sair, mas ainda assim saí de lá sentindo-me um fracasso. Falava-se muito por lá: caem almas no inferno assim como gotas de chuva na terra, apenas alguns serão salvos. Durante toda a minha estadia na Laetare, acreditava ser bem provável que, se eu então morresse, iria para o inferno. Naquele dia, acreditei mais ainda nesta probabilidade. Eu pensava: como é que eu, sendo o que só dá bola fora, poderia fazer parte do grupo de elite que Deus permite adentrar a sua casa eterna? Sentia medo, mas não apenas de ir para o inferno ser torturado eternamente, afinal de contas, eu desconhecia a tortura que haveria lá. Todo mundo ia parar lá por via de regra, eu seria apenas mais um. Apenas mais um... Essa ideia me dava repulsa, pois isso significava, para mim, ser violento como meus colegas de jardim de infância que me agrediam e eu não revidava, ou como meus colegas de escola também violentos que costumavam me humilhar sem motivo. Inferno era, para mim, a materialização do medo do fracasso em ser uma pessoa boa, a confirmação última de que eu era mau e o seria para sempre, pois no inferno não há arrependimento. O maior medo que eu sentia era o medo da humilhação: eu, lá embaixo, e os outros laetares lá em cima, rostos virados para baixo e vendo-me lá, o menino que só fazia gol contra, que não tinha autocontrole o bastante, o indisciplinado, o mole, aquele que sempre ficou de fora, que nunca se deu por inteiro, o isolado, o quieto, o fracassado. Humilhação era um conceito bem conhecido por mim, detestava a humilhação.

Imaginava no meio deles, lá em cima, a minha mãe, decepcionada: “O que foi que você fez, querido, por que você está aí embaixo? Eu tinha tanto orgulho de você!” Eu jamais teria coragem de olhar para cima.

< Capítulo 3  Índice  Capítulo 5 >

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 3: Misericórdia, não sacrifício


Entre os laetares havia amizade, alegria, companheirismo, éramos muito próximos uns dos outros. Ao final do seminário e da escola de servos, seguíamos alegremente cantando as nossas músicas pelas ruas, dançando e pulando, desconhecíamos a vergonha. O Silvanei, ele era aquele que ditava as regras. É preciso ter disciplina, exigia ele, disciplina. Claro que ele não tinha aversão à alegria, mas também não demonstrava muito interesse. Mesmo que laetare venha do latim e signifique alegrar-se, essa não era a prioridade do idealizador.

Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado. Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? [...] Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes.
Mateus 12, 1-5, 7

Para tornar-se um laetare eram necessários meses de preparação, sete semanas de seminário e dez de escola de servos. Talvez seria melhor dizer anos: depois das aulas haveria um período de experimentação para os recém-chegados de teoricamente, no mínimo, um ano. Chamavam-nos de noviços? Não me lembro. Depois os noviços tornavam-se membros, que eram chamados de servos. Eu só vi isso acontecer com dois membros, eu não era um deles. Isso era uma ideia nova do Silvanei, não tinha isso antes de eu chegar.

Aos noviços, assim como aos servos, era permitido participar do abastecimento, a reunião principal de oração e de avisos que acontecia aos sábados, e também da confraternização e do último dia dos acampamentos. O abastecimento não tem hora para acabar, dizia Silvanei, vocês devem ficar aqui até a hora que acabar. Ou seja, até a hora que ele escolhesse.

Quem não fez a leitura no domingo como eu pedi semana passada?
Escola de servos, nossa, leitura, que leitura, ah, é mesmo, na semana anterior Silvanei falara sobre o diário espiritual e pedira que fizéssemos um diário, só uma vez, no domingo, sem falha, para ir acostumando. Devido à minha confusão, não deu tempo de erguer a mão, ele já começou a falar sobre outra coisa. Passara a semana e eu não havia lembrado. Deu-nos um livrinho do padre Jonas Abib.
Diário Espiritual é di-á-rio, não é por mês, não é por ano. Vocês começarão lendo a Primeira Epístola de São João uma vez por dia durante uma semana. Se achar muito, leia um capítulo por dia. Vocês devem escrever num caderno assim, assim e assim.

Eu esperava encontrar a resposta para o que significava “ser quem você realmente é” na bíblia. Aliás, do tanto que se falava sobre isso por lá, eu imaginei que os ensinamentos de Jesus estariam repletos disso. Basicamente, para entender bastava querer (sim, esta era uma palavra carregada), mas você tinha que querer de verdade, e não querer querer, e nem podia ceder às tribulações do mundo. Em outras palavras, você pediria e Deus lhe daria respostas através de uma energia cósmica, ou coisa assim.

Isso de “ser você mesmo” está muito abstrato, não pode dar um exemplo? Claro que não falaria em voz alta, a atmosfera era de respeito, eufemismo para temor, assim como seria frente a um professor rigoroso numa sala de aula.

Aos sábados, no abastecimento, primeiramente, rezávamos o terço. Sentados na calçada. E vez ou outra alguém dizia que precisávamos de mais ânimo.

Por favor, erga a mão quem já conseguiu a proeza de rezar um terço com ânimo.


Depois do terço, hora de escutar uma bronca do Silvanei. Cada dia um motivo. Às vezes era por não haver inscrições o suficiente no acampamento para lotá-lo, e era nossa obrigação convidar pessoas. Talvez devêssemos levar pessoas amarradas, sei lá, o que mais ele esperava? Ninguém mostrava muito interesse para fanatismo religioso e não gostavam muito de insistência da nossa parte toda santa vez que tinha um acampamento. Outras vezes era porque as fraternidades, que eram grupos que nós deveríamos promover nas escolas, não estavam se desenvolvendo direito. A fraternidade só funcionava “direito” em uma ou duas escolas. Nas festas da fraternidade não compareciam muitos além dos nossos, isto é, quando compareciam, e isso também irritava o coordenador. Tem que vender as rifas, tem que vender os jantares...

O jeito dele falar é estranho, eu pensava, o que exatamente todo mundo aqui vê nele? Depois da bronca, tinha as ordens e, depois destas, um discurso comovente, mas não muito comovente, não para mim, pelo menos, tinha que fazer esforço para me comover. Então às orações: cada um rezava, um de cada vez, de acordo com a vontade. Começava devagar, leve, seguido de música. Então, choro. Culpa. Mas de quê? Não sei, tinha a ver com aquela ideia abstrata. Não, eu suspeito que a origem eram as broncas infundadas, mas em que os membros se permitiam acreditar, ou então sentir culpa durante as orações tornara-se hábito. O remorso camuflava-se, é claro, em conceitos abstratos, “Ah, Senhor, como sou pecador, desmerecedor da sua graça! Perdoa-me, Senhor!”

Nas igrejas dos crentes, é “Amém, Jesus!” Lá, era “Sim, Senhor!”, “Senhor” isso, “Senhor” aquilo. Repetia-se este mantra em assincronia, como num eco. Dirigia-se a Deus na segunda pessoa do plural. Uma vez tentei usar 'você' em vez de 'vós' e de trocar 'Senhor' por 'Deus'... Soou estranho, e não responderam “Sim, Senhor!” É óbvio, as pessoas estavam treinadas para ouvir 'Senhor' e 'vós', não 'você' e 'Deus'. Conceitos mais concretos da vida também não eram seguidos do mantra, apenas os confusos, abstratos e sem muito conteúdo.

Naquela época, eu frequentava o curso técnico em Química e nós devíamos, ao final do semestre, entregar um portfólio por disciplina. Era para ter sido feito ao longo do semestre, mas eu tenho mania de deixar as coisas para a última hora. Uma semana antes da data de entrega do primeiro, recebi uma bela bronca dos meus pais, claro, está certo, eu precisava da bronca, fazer o quê? Por conta disso, fui impedido de comparecer à decoração da festa da fraternidade, eu fazia parte da equipe, além de não ter recortado qualquer coisa que eu devia ter lá levado recortada.

Mais tarde no mesmo dia, estava eu lá, ao poste, marco da nossa casa, estranhando a demora em receber uma bronca, eu sabia que receberia. Então o Silvanei aproximou-se de mim. Na confraternização, os alunos de violão iriam tocar para os outros. Eu era um deles e, adivinhe, eu não toquei, fiquei de castigo sentado no canto da sala de aula de braços cruzados, cara amarrada e com um cone comprido sobre a cabeça.

O juiz havia me dito que isso seria apenas uma “consequência” do que eu havia feito, mas qual exatamente é a relação entre falhar com seus deveres na escola e não poder tocar o violão? Ou talvez, em que iria isso ajudar? Ele sempre dizia que a gente deveria andar na linha, deveríamos ser os melhores na sala de aula, os que menos se metem em encrenca, enfim, deveríamos ser modelos de pessoa. Talvez na verdade era o orgulho dele que estava ferido, pois isso de certa forma mostrava que eu não havia colocado Ele, quer dizer, a Comunidade como a coisa mais importante da minha vida.

Uma vez, apareci de bermuda no abastecimento. Por algum motivo, mesmo após anos frequentando-o, nunca havia me dado conta que era regra ir de calças. Em geral, ia-se para a missa das 15h e de lá no abastecimento, e na missa a regra usar calças, então pensei ser este o motivo que, em geral, eu via todo mundo usando calças. Perguntaram-me o que eu fazia com as pernas peladas, respondi que estava com calor.
E você acha que é só você que está com calor.
Ah, não, droga, é regra, ai, o coordenador vai vir de chicote para me coordenar! Não, ele não veio de chicote, mas, ao começar a falar, mencionou que todos deviam vir de calças. Olhei ao redor, não, só eu usava bermudas. Eu não tinha um espelho para ver o quanto meu rosto ficou corado naquela hora.

É por isso que na escola, na hora do futebol, eu era o último a ser escolhido: eu só dava bola fora, o campeão dos gols contra.

Só não tínhamos microcâmeras vigiando nossos passos porque são caras. Não era permitido convidar outros laetares para ir a festas ou qualquer outro evento que não da Comunidade sem permissão. Nem festa de aniversário. Acontece que por vezes ia um grupo de membros a uma festa e os pais dos envolvidos iam reclamar com o Silvanei. Ou seja, ele podia dar bronca, mas não receber, é claro, esta era a nossa tarefa, não a dele. Certa vez, ao voltar da escola de servos, eu e alguns outros indivíduos desviamo-nos do caminho para um estádio onde havia um show... católico. De acordo com o Silvanei, não podíamos ter feito isso.

Também deveríamos avisar antecipadamente se, por algum motivo, tivéssemos que faltar do abastecimento. Esta regra eu também quebrei: no final do ano havia algumas semanas de férias para o natal e o ano novo. Achei que tinha mais uma semana a mais de férias, então fui dormir na chácara de um primo meu para jogar jogos de tabuleiro e nadar.
Vocês não podem faltar sem avisar os seus irmãos. Como é que você deixa todos nós aqui na mão?
Todos nós? Como assim “nós”? Quando alguém faltava, o coordenador era avisado e mais ninguém, e ele não se preocupava nem um pouco de avisar o resto. Quem se preocupavam eram os faltantes, eles é que sempre pediam para alguém avisá-lo, só o que interessava era que ele ficasse sabendo. E, pelo que eu me lembre, só ele ficava incomodado. O resto apenas comentava “Ah, faltou, não pôde vir, fazer o quê, é a vida, né?” Ele, e só ele, tinha a obsessão de controlar cada detalhe que acontecia no mundo laetariano.

Tempos depois ouvi ele dizer que quem não quisesse vir no abastecimento poderia faltar. Ué, por que agora ele mudou de ideia? É que, segundo ele, todo mundo tinha que rezar pelo menos uma vez, ele só queria lá quem estivesse a fim de rezar. Siga a lógica: você não pode faltar sem um motivo, e tem que avisar antes: e, como você pode faltar, se você vier, tem que rezar. Lindo! Kurt Gödel, grande lógico, por que está tão agitado, por que se remexe tanto assim dentro da sua tumba?

Meu diário espiritual não era diário, detestava ler a bíblia e recebi broncas por conta disso. No abastecimento ou em qualquer outra reunião, não podia chegar atrasado, tinha que estar lá com no mínimo dez minutos de antecedência. Nunca fui bom com horário e levei bronca.

Não imagino por que não ganhei um troféu, eu devia ser o único indivíduo que conseguiu quebrar cada uma das regras que o Silvanei inventava. Ah, ele me adorava por isso.

Certa vez resolvi frequentar novamente a escola de servos. Por algum motivo, havia perdido da primeira vez o detalhe principal de toda a teoria: o autoconhecimento. Foi a primeira vez que aquela noção de “ser você mesmo” fez algum sentido para mim. Não me ocorreria tão rapidamente que toda a base sobre a qual a Laetare se fundamentava não encontrava-se na bíblia. Nem mesmo, aliás, no cristianismo, não originalmente pelo menos, mas no budismo. É claro que isso não significa que a ideia era ruim, pelo contrário, autoconhecimento é muito útil, até porque ele o tempo todo me apontava para fora de lá. Entretanto, eu não iria encontrar nada a respeito disso na bíblia, porque, demorei para entender o óbvio, não está lá! Apesar de todas as afirmações em contrário, que faz você brincar de caçar o pato sem o pato.

O que Jesus dizia também gritava para mim: “vá embora”, “te manda, moleque”! Mas eu pensava: se eu aprendi sobre o autoconhecimento lá, o melhor entendimento dessa teoria deveria encontrar-se lá dentro, não é mesmo?

Não é?

Como se diz por aí, as melhores mentiras são em boa parte verdade. Ou talvez seja mais preciso dizer: são ao menos consistentes na base, mas falácias são construídas a partir dela. Se alguém questionar a construção toda, recorre-se à raiz como defesa, pois é mais difícil convencer que a raiz é falsa do que toda a concepção ao redor dela. E as falácias ao redor, juntamente com a mania de controle, sufocam e impedem qualquer tentativa de entender, de fato, a base.

Mas tem que fazer isso na medida certa, é claro. Sufoco demais causa perda de controle.

< Capítulo 2  Índice  Capítulo 4 >
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...