sábado, 7 de janeiro de 2012

Em busca do Jesus histórico 7: Júnia, a apóstola, e as mulheres na visão de Paulo

A característica mais interessante de Paulo, o famoso apóstolo, é que ele prega uma certa igualdade entre homens e mulheres dentro das igrejas. Esta é uma visão dissonante com os padrões da época e especialmente com os padrões do cristianismo que iria se desenvolver no mundo depois de algumas décadas. Ele dava às mulheres vários direitos, incluindo que elas falassem nas igrejas e - pasmem! - que elas liderassem-nas.

Apresento como referência a aula do historiador do Novo Testamento Dale B. Martin.


O direito das mulheres, de acordo com Paulo

Paulo, o apóstolo
Em 1 Tessalonicenses 4, o apóstolo dirige-se à igreja como se houvessem apenas homens membros. Cronologicamente, esta é sua primeira carta (em 51 d.C.), e percebe-se que, com o tempo, isso muda: as comunidades cristãs deixam de ser clubes-do-bolinha e Paulo (em 53 ou 54 d.C.) decide dirigir-se diretamente às recém-chegadas:

No tocante às coisas sobre que me escrevestes, bom é que o homem não toque mulher; mas por causa das fornicações, cada um tenha sua mulher, e cada uma seu marido. O marido pague a sua mulher o que lhe deve, e da mesma maneira a mulher ao marido. A mulher não tem domínio sobre o seu corpo, mas sim o marido; e da mesma forma o marido não tem domínio sobre o seu corpo, mas sim a mulher.

Então, ao contrário do que se vê em outras partes da Bíblia, Paulo está dando uma ideia de reciprocidade. No matrimônio, não apenas a mulher pertence ao marido, mas o marido também pertence à mulher. E ele vai ainda mais longe:

Aos casados, porém, dou mandamento, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não separe do marido (mas se ela se separar, fique sem casar, ou reconcilie-se com seu marido); e que o marido não deixe a sua mulher.

Desenho mostrando o uso de véu por cristãs
primitivas
nos séculos II e III

É fato também que ele coloca as mulheres num patamar inferior dos homens:

Mas quero que vos saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem é a cabeça da mulher, e Deus é a cabeça de Cristo.

Todo o homem quando ora, ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça. Toda a mulher, porém, quando ora, ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça; pois é uma e a mesma coisa como se estivesse rapada. Portanto se a mulher não se cobre com véu, seja também tosquiada; mas se é vergonhoso à mulher o ser tosquiada ou rapada, cubra-se ela com véu.


Portanto se a mulher não se cobre com véu, seja também tosquiada; mas se é vergonhoso à mulher o ser tosquiada ou rapada, cubra-se ela com véu.
1 Coríntios 11:5-6


Todo o homem quando ora, ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça.

Toda a mulher, porém, quando ora, ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça; pois é uma e a mesma coisa como se estivesse rapada.
1 Coríntios 11:3-5

Agora, comparemos os versículos acima com estes:

Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas estejam em sujeição, como também diz a Lei. Se, porém, querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa a seus maridos; porque é vergonhoso para uma mulher o falar na igreja.

Estranho, não? De um lado, o missionário dá a entender que mulheres podem profetizar - desde que estejam de cabeça encoberta - e de outro, ele explicitamente ordena que elas se calem nas igrejas.

Antes de tentar dar piruetas e tentar "interpretar" esta última perícope, caro leitor, saiba que há uma explicação bem mais simples. Ao leitor dedicado, peço que leia o capítulo 14, ou ao menos a partir do versículo 30. O assunto sendo tratado são profecias, orações em língua, pregação, entre outros. Veja como a perícope acima salta aos olhos - ela está totalmente deslocada. É uma interpolação.

Não precisaríamos mais do que isso para ter uma base (não tão sólida) para dizer que esta passagem é uma adição posterior. Entretanto, para nossa alegria, temos bem mais do que isso. De fato, este verso:
  1. aparece em posições diferentes nos manuscritos;
  2. apresenta alta concentração de variação textual nos manuscritos (como pode ser visto aqui - clique na aba "Greek");
  3. apresenta uma linguagem dissonante daquela comumente utilizada por Paulo;
  4. rompe  com o fluxo do texto;
  5. é demarcado como problemático pelos escribas.
Vale lembrar que as características acima também se aplicam à Perícope da Adúltera (como foi discutido em outro texto).

Esta passagem problemática não foi citada por nenhum dos escritores cristãos do século II (em especial, Clemente de Alexandria), exceto Tertullian, por volta de 200 d.C., apesar de seu conteúdo chamar muito a atenção pela sua forte restrição. As evidências são muitas, esta é uma fraude óbvia. Isso mostra que os escribas cristãos faziam alterações nos textos cristãos por motivos ideológicos.


Febe, a diaconisa, e Júnia, a apóstola

Febe
Então, as mulheres, na opinião de Paulo, podiam orar e profetizar nas igrejas. Isso fica evidente também na carta aos Romanos, capítulo 16, onde o pregador cita várias mulheres envolvidas nas igrejas, muitas vezes em posição de destaque. Febe (em inglês, Phoebe), Prisca (ou Priscila), Maria, Trifena Trifona, Pérside... Ao longo das décadas, entretanto, houve relutância em aceitar esta possibilidade e, por isso, algumas palavras foram traduzidas de uma forma que hoje é contestada pelos historiadores.

Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está no serviço da igreja em Cencreia, para que no Senhor a recebais dum modo digno dos santos, e a ajudeis em qualquer coisa que de vós precisar; porque ela tem sido protetora de muitos, e de mim em particular.

Vejamos esta outra possível tradução:

Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é diaconisa da igreja de Cêncris.

A palavra com a tradução problemática é diakonos, que pode significar tanto diácono quanto servo. Entretanto, pela colocação na frase, está claro que a tradução mais apropriada é diácono. O engraçado é que a palavra está no gênero masculino, o que reforça a ideia de que se trata de um título e que a Paulo está efetivamente considerando-a como diaconisa. Está claro que traduzi-la como servo é uma questão cultural: se o nome fosse masculino, não haveria hesitação em traduzir esta diakonos como diácono.

Outro versículo que chama a atenção neste mesmo capítulo é o seguinte:

Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim.

Andrônico, Atanásio de Alexandria e Júnia
Este versículo apresenta variações na tradução. Júnias é um nome masculino. Entretanto,  o nome que consta no manuscrito está na sua forma acusativa, Iounian, que, portanto, pode também referenciar-se a Júnia, um nome feminino. Como podemos decidir entre os dois nomes, então? Outro problema é o texto diz que eles eram apóstolos notáveis ou se os apóstolos os estimavam. Ou seja, será que Júnia(s) era um(a) apóstolo(a)?

É claro que o conceito de apóstolo para Paulo não se limitava aos doze - afinal, ele se denominava apóstolo e afirmou não ser um deles.

Os primeiros cristãos, ao ler a carta de Paulo, entenderam que se se tratava de uma mulher. Todos os pais apostólicos (com uma exceção) referenciavam-se a ela pelo nome de Júnia. Um exemplo é Crisóstomo (347-407), que fala a respeito das mulheres em Romanos 16.



De fato, serem apóstolos já é um grande feito. Mas ainda ser notável entre eles, imagine como isso deve ser uma grande honra! Mas eles eram notáveis pelos seus trabalhos, suas conquistas. Oh! Como é grande a devoção desta mulher para que ela seja digna da designação de apóstola!
Crisóstomo (p. 554, 555 - tradução livre)


Note que este cristão não era nenhum feminista, tendo dito que, "dos animais selvagens, nenhum é mais danoso que a mulher".


A exceção que mencionei é Epifânio (438-496), que citou o nome Júnias. Entretanto, ele também cometeu o erro de referenciar Prisca (Romanos 16:3) como Priscus, outro nome masculino. Portanto, a referência de Epifânio é duvidosa.


O fato que mais aponta para o nome Júnia é que este nome foi encontrado em mais de 250 textos na antiguidade, mostrando que este era um nome bem comum (como abreviação de Junianas), enquanto que a forma masculina Júnias não foi encontrada em lugar algum!


Sendo assim, aparentemente, a tradução histórica de Iounian como Júnias - que começou no século XII - foi puramente por motivos ideológicos. O mesmo motivo ideológico que levou ao acréscimo de 1 Coríntios 14:33b-35 por escribas do século II em diante. De fato, os cristãos da Idade Média tentaram negar e encobrir a verdadeira identidade de Júnia. Ela era uma mulher e era apóstola.

Febe e Júnia são veneradas em algumas religiões cristãs, especialmente na Igreja Ortodoxa e nas igrejas não-calcedonianas (às vezes conhecidas como igrejas ortodoxas orientais).


A conclusão que tiramos disso tudo é que a noção que apenas homens podem liderar as igrejas de hoje não tem fundamento histórico.


< Parte 6  Parte 8 > 

2 comentários:

  1. O apóstolo Paulo não coloca a mulher como inferior de jeito nenhum. Porém a mulher foi tirado do homem; ele foi formado do pó da terra mas ela foi tirada dele e a posição dela em relação a ele é exatamente a mesma da igreja em relação ao SENHOR JESUS CRISTO. Assim como CRISTO deu-se a SI mesmo pela igreja e dela cuida com amor sacrificial e sacerdotal; a igreja é O CORPO DE CRISTO, e o homem deve amar sua mulher como a seu corpo. Ai do homem que maltrata sua mulher! Leia a historia de Nabal e Abigail

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    1. Você está simplesmente pregando. A história de Nabal e Abigail não podem ajudar a entender o ponto de vista de Paulo - 1 Samuel está em outro livro, escrito em outra época por outra pessoa.

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